Domingo do Ascensão

Dia 29 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 1,1-11
Segunda Leitura: Ef 1,17-23
Salmo: 46,2-3.6-9
Evangelho: Lc 24,46-53

O Evangelho

Para maior clareza seria oportuno ler o texto mais amplo, isto é, Lc 24,36-53, depois comparar com At 1,1-11 e anotar todas as diferenças: o local, o gesto de Jesus e o tempo não conferem, embora os dois textos sejam do mesmo autor: Lucas. Por que ele modificou o relato? Nem At 1,1-11, nem Lc 24,36-53 são crônicas históricas, mas teológicas. O que é a ascensão? Qual seu sentido teológico?

A ascensão é a culminância de toda missão de Jesus. Agora tudo está consumado. O Pai deu razão a seu Filho sobre todos os poderes deste mundo. Depois da ascensão de Jesus, os discípulos voltam para Jerusalém, cheios de alegria. A Igreja que crê no Ressuscitado, vivendo em meio aos conflitos deste mundo, mesmo sem ter a presença física de Jesus, tem todos os motivos de estar alegre, pois ele envia o que o Pai prometeu: o Espírito Santo.

A fé testemunhada por quem experimentou a ressurreição, confirmada pela vinda do Espírito Santo (At 1,6-8; 2,1-13) é a base de toda ação evangelizadora da Igreja. Crer no Cristo vivo, sentado à direita do Pai é o motivo que lança homens e mulheres para a missão através dos séculos e milênios. Esta certeza do Cristo vivo se expressa também na certeza da vitória da vida sobre a morte de todos os seguidores do mestre. É também a certeza da vitória do bem sobre o mal. Este mesmo Senhor vivo não se afastou da comunidade. A fé diz que ele continua presente em todas as pessoas que se reúnem em seu nome (Mt 28,20).

Relacionando com as outras leituras

Entre a Páscoa e a Ascensão se vão quarenta dias (At 1,1-11). Nem Mc 16,16ss, nem mesmo Lc 24,46ss afirmam isto. Mateus e João não narram a ascensão de Jesus. Os quarenta dias não são relatos históricos, mas teologicamente lembram os quarenta anos do Povo de Deus no deserto (Ex 16ss), bem como os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai (Ex 24,15-18); lembram também os quarenta dias de chuva do dilúvio (Gn 7,4); Elias caminhou por quarenta dias até o Horeb (1Rs 19,8); Jesus, antes de iniciar sua vida pública, foi para o deserto, onde rezou, jejuou por quarenta dias (Mc 1,12s; Mt 4,1ss; Lc 4,1ss). Quarenta significa tempo de preparação. Assim os escravos libertos, Moisés, o dilúvio, Elias e Jesus se prepararam para uma nova realidade deixando para trás um estilo de vida para assumir outro. Uma vez que, agora Jesus não estará mais fisicamente presente na Igreja, os discípulos se preparam por quarenta dias para depois ir ao mundo e anunciar o Evangelho. Quem vai evangelizar precisa ter experiência do Cristo Vivo. A mensagem da paixão, morte e ressurreição é central no anúncio dos pregadores. Por isto, agora eles têm base para testemunhar. Ainda hoje, a Igreja se prepara durante quarenta dias (quaresma), todos os anos, para celebrar a Páscoa.

E por fim, o que dizer da ascensão? A arte sacra representa Jesus subindo como um foguete para o céu. Mas vale dizer: o mistério da Ascensão escapa da observação física. Já a arte sacra, e mesmo os textos bíblicos representam este mistério de forma palpável, para que se possa entender. Certamente Jesus foi ao céu, mas isto não deve ser visto como fenômeno observável pelos sentidos, até porque o céu não está lá encima, ou seja, não é um lugar geográfico. Este mistério só pode ser abarcado pela fé. A verdade é que, Ele, o Ressuscitado está vivo junto ao Pai e é o Senhor da história. Não é mais visível como foi quando vivia aqui na terra. Agora, a realidade é outra. Jesus está vivo, mas não está mais dentro dos limites físicos: geográficos e temporais. Os discípulos o experimentaram vivo e agora devem continuar a obra iniciada por Jesus, para isto se requer seu firme testemunho sob o impulso do Espírito Santo (At 1,6-8; 2,1-13). Eles não devem ficar olhando para céu com saudades do passado, esperando sua volta, mas devem ir ao mundo, evangelizar. Seu compromisso é anunciar o Cristo vivo a todos os povos. Ef 1,17-23: é preciso pedir a sabedoria a Deus para conhecer o mistério realizado na pessoa de Jesus Cristo, quando o Pai o ressuscitou dos mortos.

Sexto Domingo do Tempo Pascal

Dia 22 de Maio de 2022
Primeira Leitura: At 15,1-2.22-29
Segunda Leitura: Ap 21,10-14.22-23
Salmo: 66,2-3.5.6.8
Evangelho: Jo 14,23-29

O Evangelho

Esta parte do Quarto Evangelho encontra-se no chamado “Livro da Hora” (13,1-20,9) ou do caminho de volta para o Pai. No capítulo 13 a “hora” é marcada por Jesus reunido com sua comunidade, pano de fundo de todo o “discurso de despedida” que vai do capítulo 13 ao 17. Este “testamento” de Jesus resume seu legado de diferentes formas: “a primazia do serviço” no lava-pés (13,12-20), o “novo mandamento” de amar como ele amou (13,21-35), o lar místico de Jesus e quem lhe segue seguindo os mandamentos nas “muitas moradas” (14,1-15), chegando ao sentido da continuidade da missão de Jesus através do “Paráclito”, “Consolador”, ou “Espírito da Verdade” (14,16-31). Neste domingo se dá a transição entre o Tempo Pascal e o tempo do Pentecostes. O Lecionário pinça uma parte da perícope para conseguir este objetivo. Qual é, então, o possível sentido que a “tradição” da igreja (lecionário) dá à leitura do Evangelho de hoje?

O amor: ponto de partida e gerador de sentido (14,23):Começa com a resposta de uma pergunta que aparece em 14,22. Judas – não o Iscariotes –  pergunta por que ele se manifesta para a comunidade e não ao mundo. A resposta condiciona tudo ao amor: quem ama recebe amor, quem ama guarda a Palavra, quem ama habita com Deus em Cristo. No “mundo” está “quem não me ama” (14,24).  O seguimento da “palavra” (logos) é o seguimento do próprio Cristo. A tradição viu que, no amor, tudo tem seu ponto de partida, lembrando de Santo Agostinho: “ama e faz o que quiseres”.

O Consolador que ensina o sentido (14,26): Também aqui temos que voltar para a primeira parte da perícope, quando em 14,16 se anuncia que o Pai vai enviar este “Consolador” (em grego paráclitos que quer dizer “advogado”, “aquele que fica do lado da pessoa”). O “Espírito da Verdade” (pneumas tes aletéias) concretiza a presença amorosa de Deus na vida das pessoas que amam e levam amor ao mundo através da Palavra, e isto é recebem a Verdade.

A Paz, sentido da presença divina na vida de quem ama (14,27):A Paz (em grego eirene) deve ser lida no sentido hebraico/aramaico de shalom. No sentido grego “paz” é “tranquilidade de espírito”; mas, no sentido hebraico/aramaico é fartura, felicidade e plenitude. Jesus não vai para nenhum “limbo”, mas para junto do Pai (14,28), que por sua vez permanece junto à comunidade que ama através do Espírito da Verdade/Santo que lhe defende e ampara no caminho da missão no mundo.

Aviso para que creiam (14.29).O Quarto Evangelho é escrito por volta do ano 100 d.C. Nessa época havia muita gente sentindo falta de Jesus. Muitas das pessoas que lhe seguiram tinham morrido. Será que nos abandonou? Este aviso quer lembrar que Jesus está na comunidade que vive o amor através da ação do Espírito da Verdade/Santo, que entende a dor, que a fortalece. A amor é, como quer nos mostrar a tradição, o ponto de partida capaz de superar frustrações e exclusões, e dar sentido a ser comunidade de amor em um mundo que clama por amor e paz.

Relacionando com as outras leituras A leitura de Atos nos fala da inclusão das pessoas não judias que se convertiam à fé cristã. Dois critérios se confrontaram: impor a elas as exigências da lei bíblica (circuncisão) ou admitir que a presença do Espírito da Verdade/Santo, do amor vivendo nelas, era suficiente. A sentença final diz: “na verdade pareceu bem ao Espírito Santo não lhes impor mais nenhuma carga, exceto o essencial” (At 15,28). Não era uma “concessão” de quem tinha mais dignidade ou autoridade institucional, mas o reconhecimento de uma ação amorosa do Espírito Santo, capaz de curar divisões e exclusões. Assim também podemos interpretar a visão da Nova Jerusalém no Livro de Apocalipse, com 12 portas abertas para os quatro pontos cardiais da terra, que não são algumas portas, mas todas as portas para todas as pessoas que desejam entrar, 12 tribos, que não são apenas um povo, mas expressão de todos os povos, 12 alicerces desse mundo novo onde há moradas para todas as pessoas que amam (Ap 21,10-14). Um mundo do Cordeiro que se entrega por amor e que se torna luz para todas as pessoas em todos os lugares (Ap 21,22-23).

Quinto Domingo do Tempo Pascal

Dia 15 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 14,21b-27
Salmo: 144, 8-13ab
Segunda Leitura: Ap 21,1-5a
Evangelho: Jo 13,31-33a.34-35

Na passagem dos v. 31-35 João associa a partida de Judas do Cenáculo com início do drama da Paixão de Jesus, que levaria à sua glorificação em céu. Jesus mesmo dá o anúncio aqui para os discípulos em tom alegre, porque já era iminente voltar para o Pai. Os discípulos não deviam afligir-se pelo seu afastamento momentâneo, mas permanecer unidos em seu amor, amando-se como irmãos e irmãs, para expressar sua pertença à comunidade messiânica fundada por ele.

vv. 31-32: “Agora o filho da humanidade foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele”. Jesus retoma um tema anunciado na vinda dos gregos posteriormente à sua entrada em Jerusalém (12,23.28). A chegada dos pagãos preludiava sua morte-glorificação; agora a saída de Judas dá início à paixão e representa sinal do processo que leva Jesus à morte e, por meio dela, à glorificação. O título “filho da humanidade” refere-se sobretudo à figura humana histórica de Jesus, solidária com o destino humano, enquanto o “filho” absoluto na passagem paralela 14,13, enfatiza sua divindade. “Foi glorificado” (edoxasthē) expressa o momento decisivo da missão de Jesus e se refere de forma global à sua paixão-morte e ressurreição-ascensão, isto é para a elevação na cruz e para a glória do céu (cf. 3,14; 8,28; 12,32). É Deus quem glorifica o Filho, mas ele a si mesmo é glorificado na entrega voluntária do Filho para cumprir seu plano de salvação. No v.32 a glorificação de Jesus aparece subordinada à do Pai e se expressa no futuro: “Deus o glorificará”, com referência ao segundo momento de glorificação, que em breve aconteceria em sua ressurreição e exaltação no céu, em seu retorno ao Pai no primeiro dia da semana (20,1), ou seja, no domingo de Páscoa. Sob o ponto de vista confiante do evangelista, exatamente a hora mais obscura na vida terrena de Jesus se revela como a hora da glorificação.

v.33: “Filhinhos, só por pouco tempo estarei convosco, … para onde eu vou, vós não podeis ir”. Jesus se dirige aos discípulos com este título (teknia) cheio de ternura, usado apenas aqui em Jo (sete vezes na primeira carta). Ele evoca a pregação feita anteriormente aos judeus (7,33-34; 8,21). Mas enquanto eles não o encontraram por causa de sua incredulidade, os discípulos/as o seguirão mais tarde (v. 36), para estar sempre com ele, porque conheciam o caminho (14,3-4).

v.34-35: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros…”. Jesus no contexto do tempo pascal pretende sancionar a Nova Aliança, que terá como estatuto fundamental o mandamento do amor. Ele resume a Lei mosaica em um único preceito, que será a marca registrada de sua comunidade. Os profetas haviam predito uma nova aliança, não mais escrita em tábuas de pedra, mas colocado no coração (Jr 31,31-34; Ez 36,24-28). Lv 19,18 também prescreveu amor ao próximo. Mas a novidade do mandamento de Jesus está na segunda parte do v.34: “Assim como eu vos amei, [Eu ordeno!] amai-vos também uns aos outros”. “Como” (kathōs) indica o fundamento do qual brota e sobre a qual esse amor repousa, que se expressa no serviço aos irmãos e irmãs com a disposição de um sacrificar até a própria vida, imitando seu exemplo. Jesus torna-se norma e fundamento, fonte e modelo do amor cristão autêntico. A nova Lei é o próprio Jesus, como sinal elevado que manifesta e exprime o amor de Deus. Essa relação amorosa mostrada por Jesus desafia o mundo e leva as pessoas a fazer sua escolha em favor da luz.

Dado o caráter particular da “hora de Jesus”, não se pode compreender interpretar em um sentido estritamente temporal os tempos dos verbos usados na perícope, ou seja, os aoristos dos primeiros versículos e os tempos futuros das últimas linhas. O aoristo edoxasthē é certamente escolhido em relação à saída do traidor. Precisamente com ela Jesus foi glorificado, a hora começou. Se, então, nos últimos versos fala-se da glória de Deus para o futuro, isso é explicado pelo caráter de correspondência que tem seu ato. É quase um futuro lógico (veja a frase introduzida por ei v.32), mas não exclusivamente; na verdade, esta ação é colocada no futuro e nele se prolonga. O ponto de vista principal é aquele da recíproca glorificação do filho da humanidade e Deus.

No v.32 euthys, imediatamente, volta a sublinhar que a glorificação operada pelo Pai retorna na ora na qual o filho da humanidade glorifica a Deus no modo mais elevado. Mas a glorificação não consiste apenas em retomar no céu a glória que lhe pertence, mas sobretudo na transmissão da salvação, no dom da vida para todos os que creem. Esta finalização da “glorificação” de Jesus em função daqueles que lhe foram confiados e das pessoas que no futuro se juntarão a ele, nunca será suficientemente destacada.

O “novo mandamento” do amor mútuo, que Jesus dá aos seus discípulos e discípulas como uma disposição testamentária e atribui-lhes como uma marca de seu seguimento (v.35), pode-se compreender e interpretar muito bem, colocado como está imediatamente após as palavras da separação iminente: nas dificuldades em que os/as discípulos/as virão a encontrar-se devem manter o relacionamento com ele, voltando seus cuidados para outros, como ele fez. Este amor constituirá verdadeiramente a característica essencial da comunidade cristã (1ª. Leitura). Note-se a evidente relação entre o “novo céu e a nova terra” (Ap 21,1) como frutos da ação amorosa de Deus e do compromisso cristão.

Quarto Domingo do Tempo Pascal

Dia 08 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 13,14.43-52
Salmo: 99,2.4.5.6.11.12.13b
Segunda Leitura: Ap 7,9.14b-17
Evangelho: Jo 10, 27-30

O Evangelho

No capítulo 10 do Evangelho de João, Jesus usa uma comparação tirada do ambiente rural e pastoril: as ovelhas e o pastor. Jesus se apresenta como o pastor que conduz e protege o rebanho.

As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem v.27. Este versículo 27 tem seu realce no versículo 26 quando diz que os quenão creem, não pertencem ao seu rebanho. Jesus diz que as ovelhas que são dele o conhecem, não só de forma teórica, mas por adesão: me seguem, comprometendo-se com o seu projeto de vida que todos tenham vida e tenham de sobra (Jo10,10). Essas ovelhas nele encontram a vida eterna. A vida eterna não significa em primeiro lugar o céu e o paraíso. Significa a força e a coragem que nos fazem caminhar com segurança no dia a dia, diante do que nos ameaça, entristece e amedronta. Portanto, não basta escutar, é necessário seguir, é necessário confiar e arriscar-se. Sabemos se escutamos e seguimos observando nosso comportamento, nosso compromisso, nossa entrega.

Por isso Jesus diz que as ovelhas a quem ele deu vida eterna nunca perecerão e nunca serão arrebatadas de sua mão (v. 28). Com esta afirmação, Jesus quer encorajar seus discípulos: quem escuta e segue a sua voz não enfrentará sozinho as dificuldades e os perigos, porque Jesus é o pastor que defende os seus e lhes dá a vida.

Hoje há muitas vozes que querem nos desviar da voz de Jesus: o consumismo, o prazer, a ganância, a vingança, o poder. Mas estas vozes são vozes dos ladrões, dos violentos que querem nos arrebatar da mão de Jesus. Para sabermos qual voz estamos escutando e seguindo, é necessário observar se encontramos uma vida, uma alegria e uma paz que são firmes, que são “eternas”, ou se somos pessoas cada vez mais tristes e amargas. A vida que Jesus nos oferece é um novo nascimento, que faz com que sejamos pessoas novas, mais comprometidas com a verdade, a justiça e a paz. A vida que Jesus nos oferece não é um dom para ser aproveitado de modo egoísta e individualista. É um dom que deve ser partilhado. Portanto temos vida eterna quando levamos a vida eterna para os outros.

Jesus diz que seu Pai é maior do que tudo e todos e ninguém pode arrancar as ovelhas de Jesus da mão do Pai (v.29). Quem escuta e segue a voz de Jesus conta com a força e a proteção do próprio Deus. A vida que Jesus promete é a vida do Pai. A vida que Jesus promete é maior do que a vida que as vozes do mundo podem oferecer.Mas somos nós que escolhemos qual voz queremos escutar e seguir. As ovelhas que pertencem ao rebanho de Jesus reconhecem a sua voz. É por Jesus, com Jesus e em Jesus que encontramos vida, e vida em abundância, vida eterna. Por isso, podemos repetir o que tantas vezes rezamos em nossa liturgia eucarística: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós Deus Pai, todo-poderoso, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém.”

Eu e o Pai somos um (v.30) Jesus é expressão perfeita do Pai (12,45). Esta união faz de Jesus a presença do Pai no mundo (14,9), o seu santuário: o Verbo tornou-se carne e armou sua tenda entre nós (1,14). Seu ser e sua atividade são a explicação do que é o Pai: amor, doação. É nas atividades de Jesus que faz presente o amor do Pai para com a humanidade. Por Jesus e em Jesus que o Pai nos ama como amou a Jesus, e demonstrou comunicando-nos o Espírito por seu intermédio (Jo 17,32.26; 19,30).

Relacionando com as outras leituras

Na unidade do Pai e do Filho, o Salmo 99 recorda o Deus altíssimo, mas ele é, acima de tudo, o Deus da Aliança que olha com misericórdia e justiça para com o seu povo. Sua Santidade é a Santidade daquele que estabelece a justiça e o amor.

Na oração dominical do “Pai nosso” pedimos: santificado seja o teu nome, pedimos que todos reconheçam a Santidade de Deus, que esse reconhecimento se torne denúncia contra todas as tentativas de menosprezar ou manipular a imagem de Deus e seu projeto para que todos tenham vida e tenham de sobra (Jo10,10). Assim como oração do “Pai nosso” e o Salmo 99, confessamos Deus como soberano e pedimos que venha seu Reino. O Deus Pai, soberano do universal justo e misericordioso é o nosso Deus!

Terceiro Domingo do Tempo Pascal

Dia 01 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 5,27b-32.40b-41
Segunda Leitura: Ap 5,11-14
Salmo: 29,2.4-6.11-12a.13b
Evangelho: Jo 21,1-19

O Evangelho

Pode-se destacar dois grandes temas no Evangelho de hoje: o Cristo ressuscitado e a vocação de Pedro. Ele, e não o discípulo amado, é chamado a apascentar o rebanho, mas para isto, assume os atributos deste outro discípulo: o amor três vezes exigido.

O capítulo 21 do quarto evangelho é visto pelos estudiosos como acréscimo posterior e, embora tenha proximidade com Jo 1-20, reflete também os evangelhos sinóticos. É também conhecido como Atos dos Apóstolos de João, pois conta os primeiros passos da Igreja depois da ressurreição, quando Jesus já não está presente de forma física.

O relato parece um tanto estranho, pois os apóstolos que abandonaram tudo para seguir Jesus (Mc 10,28), agora, depois da crucificação, voltaram a pescar na Galileia. Teriam, eles, esquecido sua opção? Não. O texto é simbólico. A pesca é figura da Igreja na árdua tarefa de evangelizar. Sete pescadores representam a missão universal. Todos estão agindo sob a chefia de Pedro (é bom lembrar que no quarto evangelho não se destaca muito a liderança de Pedro como nos sinóticos). Alguns estudiosos julgam que este capítulo foi acrescentado tardiamente para harmonizar as comunidades joaninas com a Igreja dos sinóticos, onde Pedro era figura proeminente.

Aqui se realiza o que Jesus prometeu: “vos farei pescadores de homens” (Mc 1,17; Lc 5,10). O número de peixes que abarrota as redes demonstra a missão universal: todos os povos fazem parte da Igreja e ela se mantém una, não rompe. A Igreja deve acolher judeus e gregos, escravos e livres; homens e mulheres (Gl 3,28).

Como também em Lc 5,1-11, eles passam a noite sem nada pescar. Sem a presença do Ressuscitado, a Igreja se torna estéril. Clareando o dia, vem a Luz. Jesus é a alma da evangelização. Reconhecendo o Ressuscitado a pesca será abundante. O sucesso da missão depende da experiência do Ressuscitado que os discípulos devem testemunhar e da obediência à sua palavra.

Trata-se de uma cena de refeição da Igreja primitiva (cf. At 2,42ss). A pesca serviria como preparo desta refeição, mas antes de os discípulos terem conseguido o alimento, Jesus já preparou pão e peixe assados sobre um braseiro (21,9). Agora eles a completam com o produto de seu trabalho.

Pedro, aquele que traiu Jesus três vezes, agora, chamado a liderar a Igreja, deve ressarcir suas traições pela tríplice profissão de amor. Esta é a versão joanina de Mt 16,16ss. Pedro e o discípulo amado representam carismas diferentes. Este último reconheceu o Ressuscitado antes de Pedro, mas Pedro, embora mais lento, é o chamado a apascentar o rebanho de Jesus. Para continuar esta obra, ele deve estar disposto a morrer por amor. Quando velho, Pedro estenderá as mãos e outro o conduzirá. Esta frase é uma referência ao rito de crucificação. O condenado abria as mãos para carregar a cruz, algum soldado o cingia e o levava para onde ele não queria ir. A tríplice prova de amor é a superação da ambição de Pedro. Ele, que não queria ter seus pés lavados, pois achava que o superior deve ser servido, um dia, como coordenador, saberá dar a vida e não se fazer servir. Sem o amor isto é impossível.

Relacionando com as outras leituras

At 5,27b-32.40b-41: diante das dificuldades, Pedro e os demais apóstolos dão testemunho da ressurreição e apresentam o Ressuscitado como o salvador. Alegram-se por poder sofrer pelo nome de Jesus, conforme última Bem-aventurança (Mt 5,11s; Lc 6,22s). Aqui fica claro que os apóstolos, de fato, abandonaram tudo, como visto em Mt 10,28) para enfrentar as dificuldades e levar o Evangelho aos povos, mesmo enfrentando os maiores perigos.

Ap 5,11-14: o Cordeiro (o Ressuscitado) recebe os atributos divinos: tudo, no céu e na terra, adora ao Pai (Ap 4) e igualmente ao cordeiro (Ap 5). As três leituras apontam para a ressurreição de Jesus. Esta fé levou Pedro e seus companheiros a enfrentar todas as dificuldades até o martírio. Quem presenciou Jesus morto e ressuscitado, pode arriscar tudo e levar esta Boa Notícia a todos os povos, pois ela é a mensagem central da fé cristã.

Segundo Domingo de Páscoa

Dia 24 de Abri de 2022
Primeira Leitura: At 5,12-16
Segunda Leitura: Ap 1,9-11a.12-13.17-19
Salmo: 117,2-4.16ab-18.22-24
Evangelho: Jo 20,19-31

O Evangelho

O texto do Quarto Evangelho, está situado no chamado “Livro da Hora” do Evangelho de João (cap. 13-20), que apresenta a primeira “conclusão” ou “objetivo” de toda a obra em 20,30-31. O Quarto Evangelho seria resultado de um longo processo de compilação que poderia ter iniciado em 50 d.C. (antes dos Sinóticos, Mt, Mc e Lc) e até das Cartas Paulinas. Esta comunidade teria nascido com João Batista e desenvolvido uma cristologia peculiar que lhe afastava tanto do docetismo que defendia que a humanidade de Jesus Cristo era apenas aparente, sendo completamente divino. Mas o quarto evangelho também se diferenciados chamados “revisionistas” para quem todo o sentido da revelação estava em Jesus “vindo na carne”.

Ambas opções – docetismo e revisionismo – eram inaceitáveis para o judaísmo sacerdotal. A primeira porque havia um único Deus e Pai, conforme o Shemáh Israel (Dt 6,4); e a segunda porque um mero ser humano não poderia perdoar os pecados (Mc 2,7). O objetivo de buscar a convergência que promove a vida para o mundo, está bem presente no texto deste domingo, com a comunidade que se encontra com o Cristo Ressuscitado (recebendo a missão de perdoar os pecados pelo poder do Espírito Santo, v.19-23); reconstruindo sua unidade a partir da dúvida (v.24-29) e expressando o sentido dos sinais (semeion) resgatados no livro, para que todas pessoas possam crer e ter vida (v.30-31).

Dentro e fora: fio condutor dos encontros com o Ressuscitado

Cothenet usa a chave “dentro-fora” para ler os capítulos 18 e 19 (p.26). Mas essa mesma chave também ajuda a encontrar um fio condutor no capítulo 20. No texto deste domingo os discípulos estão dentro, fechados e trancados, por “medo dos judeus” (autoridades religiosas de Jerusalém). Jesus vem de fora para dentro e se encontra com a comunidade, empoderando-a e enviando-a (v.19-23). Tomé, que está fora, duvida, e quer as mãos e dedos dentro das feridas de Jesus para comprovar sua corporeidade material (v.24-25). Finalmente Jesus aparece dentro da comunidade (fechada dentro de si), ainda com medo, e autoriza Tomé a colocar as mãos dentro de suas feridas, mas ele acredita sem precisar tocar dentro de Jesus, gerando a bem-aventurança para todas as pessoas que creem.

Jesus, após o primeiro movimento para fora, de saída do túmulo; sempre vem de fora para dentro, quebrando a barreira do medo. O medo, que tranca a comunidade dentro, se refere aos poderes políticos repressores. Mas, também, em Tomé há o medo individualista que faz com que a pessoa se feche dentro de si mesma.

O medo se supera com a Paz. Mas qual Paz? A expressão hevenu shalom (“a paz seja com vocês”, v.19b,21a) era uma saudação coloquial tanto em hebraico quanto em aramaico. Mas este Evangelho, dedicado também ao mundo grego (“eirene ümin”) se referia à paz interior ameaçada pelo medo individualista. O medo deve ser superado pelos encontros, pela abertura, por uma igreja que sai de seu isolamento: “assim como o Pai em enviou, eu lhes envio”, v.21).

A superação comunitária da dúvida mostra Tomé não como uma pessoa “teimosa” ou “rebelde”, mas alguém cuja atitude mostra quão difícil é, para que não participa da comunidade, crer na presença viva do Ressuscitado. Quando Tomé vem para dentro, ao encontro com o Ressuscitado, tudo muda. Tomé pode apenas crer, e ao crer abre as portas para todas as outras pessoas que estão fora, vir para dentro e crer (v.29).

O sentido que o Ressuscitado dá a proclamação remete aos sinais (semeion) que foram sete (contidos no chamado “Livro dos Sinais” nos primeiros 12 capítulos). Essas manifestações de Jesus (sinais) feitas fora, são resgatadas nesta conclusão para que a comunidade que crê dentro as proclame fora (v.30-31). Portanto, o sentido deste “livro” (Evangelho) é capacitar a comunidade para ser sinal e fazer com que creiam (dentro) e fora possam ter vida em seu nome.

Relacionando com as outras leituras Neste Domingos de Páscoa, a primeira leitura é do Livro de Atos, e logo no primeiro versículo da leitura diz: “Pelas mãos dos apóstolos muitos sinais e prodígios foram feitos entre o povo” (At 5,12). O sentido da missão apostólica é ser sinal entre o povo. Já, no Livro de Apocalipse, escrito no meio da perseguição que antecedeu o Quarto Evangelho, se afirma: “Não tenhas medo” (Ap 1,17b). A missão, o envio do Ressuscitado, é superar o medo, ser igreja de e em saída e ser sinal, levando vida a todas as pessoas.

Domingo de Páscoa

Dia: 17 de abril de 2022
Primeira Leitura: At 10,34.37-43
Salmo: 117,1-2.16ab-17.22-23
Segunda Leitura: Cl 3,1-4
Evangelho: Jo 20,1-9

O Evangelho

Enquanto os sinóticos falam de mais mulheres que foram ao túmulo de Jesus, Jo apenas menciona Madalena, citada como protagonista também em Mt e Mc. No entanto, Jo não diz o propósito de sua visita ao túmulo. Talvez ela tenha ido lá para fazer o lamento que, de acordo com o costume da época, durava três dias no túmulo do falecido. De acordo com Mc e Lc, as mulheres foram ao túmulo para ungir o corpo de Jesus.. De acordo com Mt, para visitar o túmulo, que era guardado pelos guardas. Na história narrada por Jo, há um duplo movimento: Madalena corre do túmulo até os discípulos (v.1-2), Pedro e o outro discípulo correm em direção ao túmulo (v.3-4). A vinda de Pedro ao túmulo de Jesus também é confirmada por Lc 24,12 e está relacionada com a visita das mulheres, atestada pela tradição sinótica. Jo, portanto, relata um fato autêntico, mas dando ênfase à figura do discípulo amado pelo Senhor.

Existem desarmonias dentro das duas unidades narrativas: a) no v.1 Maria Madalena visita o sepulcro sozinha; mas no v.2 diz aos discípulos: “não sabemos onde (= o Senhor) puseram”; b) do discípulo dileto é dito com ênfase que “ele viu e creu” (v.8), contradizendo a sentença causal do v. 9 onde é dito que ambos os discípulos não tinham ainda entendido as Escrituras.

A historicidade da vinda das mulheres postula também a dos discípulos, pelo menos de alguns. A menção dos dois discípulos, lembrados juntos também durante a última ceia para a denúncia de Judas (13,23-25) e para a pesca milagrosa (c. 21), prova a amizade entre eles. Mas alguns detalhes do presente episódio parecem implicar uma certa emulação entre os dois, o que provavelmente reflete alguma tensão entre os ambientes petrino e joanino. Também foneticamente a prioridade do outro discípulo é enfatizada com proedramen e prōtos v. 4 e 8, mas sobretudo no decorrer da história. Contudo, Pedro não é descrito como uma figura contrastante.

Os dois discípulos vão ao túmulo com pressa, atitude bem compreensível dada a circunstância; Maria também “correu” (v.2). A anotação de que os discípulos correm juntos serve apenas para preparar a narrativa que se segue.

v.1-2 A indicação cronológica do primeiro dia da semana concorda com os sinóticos; mas a expressão “quando ainda estava escuro” não concorda com a notação de Mc, “ao nascer do sol” (16,2). A escuridão (skotias) é uma característica do estilo joanino. Possivelmente Jo pretende aludir simbolicamente à escuridão na qual os discípulos e discípulas estavam tateando por causa da ausência de Jesus. Pela primeira vez em Jo “o outro discípulo” é identificado com o discípulo amado por Jesus (v.2), que provavelmente representa a testemunha na origem da tradição do quarto evangelho.

v.5-7 Os panos de linho deitados (keimena ta othonia) onde o corpo foi colocado indicam que Jesus não poderia ser contido pelos “laços da morte” (Sl 116,3). O sudário (v.7) consistia em um pedaço que envolvia a cabeça do falecido, para evitar que a boca se abrisse. “Enrolado” traduz entetyligmenon, significando que a mortalha tinha mantido a forma da cabeça de Jesus. No entanto, os dois discípulos perceberam que o corpo de Jesus não havia sido roubado, porque os ladrões não se preocupariam em despir um cadáver antes de removê-lo da tumba.

v.8-10 “o outro discípulo, que entrou na tumba, viu e creu” (v.8). O uso absoluto de “ver e acreditar” destaca o tema da fé em todo este capítulo. Do v. 9 entretanto não parece que o discípulo amado veio imediatamente para uma fé completa. O verbo aoristo episteusen (acreditou), pode significar “começou a acreditar”. Era de uma fé inicial, talvez baseada no “sinal” da pedra removida, da presença das vestes funerárias, do sepulcro vazio. O discípulo, espantado com a ausência do corpo de Jesus, não entende, ainda não sabe que o Senhor ressuscitou. Isso explica a reserva do versículo seguinte. “Eles ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: Ele deve ressuscitar dos mortos” (v.9). A frase implica a ignorância da Escritura em um sentido global, mas com referência particular ao Salmo 16,9-10 e a Oseias 6,2.

Pedro verifica o estado dos eventos na tumba, que – no modo de ver do evangelista e no horizonte de pensamento daquela época – é extremamente importante para a questão da ressurreição: as pistas levam a concluir que Jesus ressuscitou.

No v. 5, também deve ser notado que o discípulo se inclina para dentro do sepulcro: esta é a situação de quem ainda não quer entrar. O principal fato é que o discípulo vê (blepei) os panos caídos no chão. Sob o aspecto narrativo está uma progressão intencional: Maria vê a pedra retirada do túmulo (v.1b), o outro discípulo vê os panos no sepulcro, finalmente Pedro observa (theōrei) os panos e a mortalha, dobrados e deitado à parte (v.6-7). O leitor é progressivamente informado do significativo estado de coisas.

v.6-7. Pedro, que seguia o outro discípulo (akolouthōn) aqui representa seguir materialmente, (18,15), entra na tumba e examina tudo atentamente. Ele também vê não só os panos, mas também o sudário, que foi colocada sobre a cabeça de Jesus. Mas a forma de encontrar os objetos e a disposição das coisas encontradas revelam uma intenção particular do narrador.

É natural a comparação deste evento com a revivificação de Lázaro. Na descrição de Lázaro saindo da tumba está também mencionado o sudário, com o qual “seu rosto estava envolto” (11,44). Objetivamente, no entanto, se impõe ao leitor a comparação: Lázaro chamado de volta à vida terrena deve ser libertado das ataduras, Jesus que realmente ressurge realmente se liberta delas e as deixa como um sinal de sua ressurreição.

Relação com os outros textos. O discurso de Pedro em At é uma síntese do anúncio pascal: a pregação do Batista, o batismo de Jesus, seu ministério público assinalado pela luta contra o mal, a crucifixão e ressureição, as aparições pascais aos discípulos e discípulas e a missão direcionada ao mundo inteiro.

Domingo de Ramos

Dia: 10 de abril de 2022
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 21,8-9.17-18a.19-20.23-24
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Lc 19,28-40/ Lc 22,14 -23,56

O Evangelho

O Domingo de Ramos, ao mesmo tempo que encerra a Quaresma, inicia a Semana Santa. A entrada de Jesus em Jerusalém conclui a grande “viagem” de Jesus a Jerusalém (Lc 9,51–19,27), que é o centro do evangelho de Lucas. Trata-se do “caminho de Jesus”. A narração da entrada de Jesus em Jerusalém está presente em todos os evangelhos canônicos (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10 e Jo 12,12-19).

O trecho de hoje inicia-se com a afirmação de que Jesus “aproximou-se de Betfagé e Betânia, junto ao monte chamado das Oliveira” (v. 29. cf. Zc 14,4). Deste ponto intermediário entre as duas localidades citadas, Jesus “enviou dois discípulos” (v. 29). Lucas usa o verbo apostellō, que no Terceiro Evangelho é frequentemente utilizado para “enviar em missão”: 4,18.43; 7,20,27; 9,2.48.52; etc. Os discípulos enviados aqui não são nomeados. O fato de serem dois liga-se à determinação de Dt 19,15, que expõe as condições para que o testemunho de alguém seja válido. Assim também em Lc 9,30; 24,4; At 1,10.

Enquanto a multidão chega a pé em Jerusalém para festa da Páscoa, Jesus entra montado num jumento. Tal atitude evoca novamente o profeta Zacarias: “Ele é justo e vitorioso, humilde, montado em um jumento, num jumentinho, filho de jumenta” (Zc 9,9). O cuidado em descrever o animal sobre o qual Jesus monta em sua entrada na cidade não é um detalhe secundário. Um rei guerreiro e conquistador entraria montado em um cavalo ou uma égua que, no mundo antigo, eram animais de guerra. Neste caso, Jesus teria se apresentado como um imperador ou um governante militar, que exerce o poder como um ditador e busca a guerra. Diferentemente, Jesus opta por entrar na cidade montando um jumento. O passeio por Jerusalém sobre este animal fazia parte do ritual de entronização de um monarca (cf. 1Rs 1,38-40), para simbolizar que se trata de um rei que vem trazer a paz, um rei que caminha com o povo sobre o qual passa a governar. Em outras palavras, toda a narração do evangelho evoca a esperança salvífica messiânica.

O evangelista enfatiza o papel desempenhado pelos apóstolos na manifestação: eles não apenas pegam o jumentinho, mas estendem sobre ele suas capas e fazem Jesus sentar-se.

Não deixa de estranhar o fato de que eles (quem: os discípulos? as pessoas da multidão?) “estendiam suas vestes no caminho” (v. 36). Que significa tal gesto? Em 2Rs 9,13, temos um paralelo exato, no relato da proclamação de Jeú como rei do Israel do Norte. Novamente, portanto, temos um gesto que equivale a anunciar e reconhecer que Jesus é rei. O povo parece compreender logo o significado. O evangelista, porém, acrescenta outro elemento: “Toda a multidão dos discípulos começou, cheia de alegria, a louvar a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto” (v. 37). Das pessoas ao redor, surge um louvor a Deus; todavia, a motivação está nos milagres realizados por Jesus durante a sua atividade anterior na Galileia e a caminho de Jerusalém.

Lucas omite a aclamação em hebraico: “Hosana!” e a referência ao reino de Davi (cf. Mc 11,10), e transforma a aclamação final em uma referência à paz e à glória, repetindo as palavras utilizadas antes, no relato do nascimento de Jesus, em 2,14: o que anteriormente era proclamado pelos anjos, agora é cantado pelo povo, mas com uma mudança explícita: “paz no céu[não mais na terra]e glória nas alturas” (v. 38). Tal mudança acentua ainda mais o que já fora afirmado em 2,14: a verdadeira paz não é a Pax Romana, e sim a que Jesus traz; a verdadeira glória não pertence ao imperador, mas a Deus. Por outro lado, antecipa também o lamento de Jesus por Jerusalém, em Lc 19,42-44: a cidade ignora a proposta de paz e a consequência é a guerra.

Proclamar Jesus rei é extremamente perigoso e trará uma violenta reação dos romanos. Sabedores disso, os fariseus, que anteriormente aconselharam Jesus a agir com prudência (13,31), agora pedem que ele repreenda seus discípulos (v. 39). Jesus responde com um provérbio: “se estes se calarem, as pedras gritarão” (v. 40; retomando Hab 2,11). Trata-se de uma ameaça velada, pois não se manda o profeta, a discípula e o discípulo calarem a boca (Am 2,12b; 7,12-13).

Cabe, por fim, perguntar: O que esses versículos devem provocar nos leitores de Lucas? Em primeiro lugar, o discernimento crítico para discernir se o projeto de nossos governantes (principalmente aqueles que se apresentam em nome de Deus) conduzem à paz e à vida, ou à violência e à morte. O verdadeiro Messias é humilde, manso e reconstrói a sociedade por meio do diálogo, do acolhimento e dos direitos de todos (saúde, moradia, emprego, salário justo, alimentação etc.). Mas também deve levar à consciência da missão: a boa-nova está agora nas mãos da Igreja, das discípulas e dos discípulos. São eles que conduzem Jesus a Jerusalém e o “conduzem” até os confins da terra (At 1,8).

Quinto Domingo da Quaresma

Dia 03 de Abril de 2022
Primeira Leitura: Is 43,16-21
Segunda Leitura: Fl 3,8-14
Salmo: 125,1-6
Evangelho: Jo 8,1-11

O Evangelho

O tema deste domingo poderia ser chamado de “a volta dos pecadores e a novidade de Deus”.

O relato comumente chamado de “a mulher adúltera” (Jo 8,1-11) parece que originalmente não era do evangelho de João, mas foi colocado aqui bem mais tarde. Uma leitura atenta do quarto evangelho notará que se quebrou a lógica da narrativa em relação ao que vem antes e depois do referido texto. Fica evidente que a perícope foi interpolada de forma um tanto artificial. Alguns estudiosos julgam que o texto tem características lucanas e que o mesmo foi intercalado no evangelho de João por volta do século IV, quando a Igreja recebeu muitos adeptos oriundos do paganismo. Gente que, muitas vezes, tinha uma vida moral aberta. Os cristãos mais conservadores ficavam furiosos, pois não queriam conviver na mesma comunidade com adúlteros que aderiam ao evangelho. Já outros, descontentes com este espírito moralista que freava a missão, valeram-se então, de um texto, provavelmente lucano, e o intercalaram no evangelho de João. Assim resolveram problemas concretos de comunidades onde o quarto evangelho era mais conhecido.

No AT a lei era rígida e não conhecia misericórdia. O casal adúltero, pego em flagrante, devia ser apedrejado (Lv 20,10; Dt 22,22). Mas no caso da mulher adúltera, os escribas e fariseus deixaram o homem livre. Aplicaram a lei do AT conforme suas conveniências. Aliás, os escribas desenvolviam suas tradições, onde eles aplicavam as leis do Pentateuco à realidade cotidiana. Como todos os escribas eram homens, foram brandos com o homem adúltero, que nem sequer é mencionado, mas duros com a mulher.

Jesus não entra na lógica dos autointitulados guardiões dos bons costumes. Ele mostra que 1) ninguém tem o direito de julgar os outros e que 2) antes de tudo, é preciso analisar-se a si mesmo, pois ninguém está sem pecados. Talvez o pecado dos doutores e fariseus fosse mais grave do que o pecado da adúltera. Seu pecado era a arrogância de se julgarem perfeitos e condenar os outros. Eles, com suas tradições, proibiam que as mulheres administrassem seus bens, o que obrigava muitas viúvas a se prostituírem para não morrer de fome. Jesus ensina também que devemos alegrar-nos com quem volta, principalmente os que estão mais distantes, como também se lê no relato do filho reencontrado (Lc 15,11ss).

Neste domingo urge refletir sobre a volta de todos os extraviados e a novidade de Deus, que está pronto para receber os pecadores de braços aberto. Ao mesmo tempo refletir que todos precisam olhar com humildade para dentro da própria vida, sem condenar a ninguém e ser imparcial diante dos fatos evitando o machismo na questão moral. Alegrar-se com a volta de um irmão, ou irmã que se aproxima da comunidade em busca do perdão e ser apoio sem jamais atirar pedras. Neste ponto, ainda hoje, há muitas falhas nas comunidades cristãs que muitas vezes estão mais propensas a condenar do que a se alegrar e apoiar quem volta depois do erro.

Relacionando com as outras leituras

Is 43,16-21: parte do povo de Jerusalém está no exílio da Babilônia, como fruto de políticas desastradas e da idolatria. Mas agora, Deus, por meio do profeta, por volta de 550 a.C., consola os exilados, lembrando-lhes a libertação de outrora do Egito. Novamente Deus estará com seu povo e, como então conduziu o povo por meio do mar, agora irá conduzi-lo pelo deserto, lugar inóspito. Deus está com seu povo nesta nova libertação. Deus, na alegria acompanha seu povo na volta. Fl 3,8-14: em Filipos, depois de Paulo, passaram missionários judaizantes, induzindo os féis ao rito da circuncisão e observância de Lei. Paulo mostra que tudo isto já não tem mais nenhum valor. Ele foi encontrado por Jesus, por isto, todo o passado da observância da Lei, perdeu seu sentido. Sua justiça já não é a da Lei, mas a da fé em Jesus Cristo. Por isto Paulo corre, pois em Cristo o fiel nunca está pronto. Conversão é um processo que só termina na morte. A conversão, para Paulo é, antes de tudo, mudança de perspectiva. Bem mais do que prática de obras, permitir que a graça de Cristo entre na vida e a transforma.

Quarto Domingo da Quaresma

Dia 27 de Março de 2022
Primeira Leitura: Js 5,9a.10-12
Segunda Leitura: 2Cor 5,17-21
Salmo: 33,2-3.4-5.6-7
Evangelho: Lc 15,1-3.11-32

O Evangelho

O Evangelho deste domingo se apresenta dentro de um conjunto de “três parábolas do que foi perdido” (“A ovelha perdida” em 15,3-7; “A moeda perdida” em 15,8-10 e “O filho perdido” em 15,11-32), embora a leitura indicada pule a primeira parábola, ficando as últimas duas (especialmente a terceira que é mais extensa e, de certa forma, canaliza o sentido das duas primeiras). Em 15,1-2, apresenta a introdução, ou o contexto político-teológico-pedagógico em que se apresentam as parábolas. Ali há uma tensão entre dois grupos: um excluído e discriminado que está na mesa com Jesus (“todos os publicanos e pecadores”); o outro que rotulava, discriminava e excluía, formado por fariseus e escribas. O versículo 15,3 indica que se trata de parábolas, isto é, composições simbólicas de caráter pedagógico.

O exemplo das mulheres (15,8-10)

A parábola não trata apenas de uma mulher, que perde uma das suas dez moedas e ilumina e varre a casa em sua busca (15,8), mas do relacionamento com “as amigas” (fílas, isto é, “amadas”) e “vizinhas”, com quem se alegra (15,9). Lucas reconhece que as mulheres foram companheiras na missão, administradoras de bens e financiadoras do movimento de Jesus (8,1-3). As mulheres também eram discriminadas pelos defensores da sociedade e da fé excludente. Jesus convida a seguir o exemplo das pessoas por eles discriminadas e excluídas. Convida a iluminar o espaço vital – a Casa Comum – e varrer os cantos esquecidos e abandonados, pois, então, haverá grande alegria para todas as pessoas amadas e todas as que moram ao seu redor (15,10).

O reencontro com o filho perdido

Este texto é comumente conhecido como a “Parábola do Filho Pródigo”, mas aqui fica evidente que a ênfase, como nas outras parábolas, está no filho perdido que foi encontrado. As palavras “perdido/a” (apololós/apólesa) e “encontrado” (eúron/euréte), aparecem nas três parábolas como um refrão: “encontrei minha/meu…que havia perdido” (15,6b.9b.24b). No entanto, nesta última parábola o “refrão” é dito duas vezes. A primeira, no v. 24ab, quando o filho retorna: “Porque este filho meu estava morto e voltou a vida (do verbo anaxao, no sentido de voltar do pecado), estava perdido e foi encontrado” (tradução própria). A segunda, após a reclamação do irmão, no v. 32bc: “…estava morto e vive (aqui é usada diretamente a palavra vida exen), e perdido e foi encontrado”.

O paralelo dialético é evidente: o irmão mais novo perde tudo “vivendo de forma extravagante/licenciosa” (cf. 15,13b). Depois de perder tudo, passar fome e perder também a dignidade, assume seus pecados e pensa em ser como um dos trabalhadores assalariados (mistoi) em 15,19; embora ao falar com o pai diga que ser tratado como quem serve sem esperar recompensa (doulous). Em 15,29, o filho mais velho, se apresenta como aquele que “durante anos” serviu (douléuo) e afirma que “nunca deixou passar/negligenciou um mandamento” (usando a palavra dos mandamentos da lei, entolén), no entanto, nunca pode “celebrar com os amigos” (filón…eufratô).

Assim, no final se estabelece o contraponto entre aquelas pessoas pecadoras que sentavam na mesa com Jesus, são o motivo da alegria, e quem não consegue participar da celebração na mesa da vida, porque – embora tenha servido com afinco – não entende a festa do reencontro e da alegria.

Relacionando com as outras leituras A leitura do Livro de Josué nos fala também de comensalidade. O povo que tinha superado a escravidão e opressão do Egito, podia finalmente sentar na mesa pascal. Este povo em seu processo de libertação não é mais dependente do maná, mas pode se sustentar e construir a vida. Assim o texto do Evangelho indica que a superação da discriminação, do preconceito e da exclusão, permite que a mesa eucarística e a sociedade sejam para todas as pessoas. Na Segunda Carta aos Coríntios o tema é a reconciliação, isto é, o reencontro promovido por Cristo que, não tendo pecado, acolhe pessoas pecadoras fazendo delas “novas criaturas” e promovendo uma nova justiça.