25º Domingo do Tempo Comum

Dia: 19 de Setembro de 2021

25 Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Mc 9, 30-37

Primeira Leitura: Sb 2, 12.17-20

Segunda Leitura: Tg 3, 16 – 4, 3

Salmo:  53, 3-4.5.6.8

Evangelho

A seleção do Evangelho segundo a comunidade de Marcos traz dois elementos: o anúncio da Paixão (v. 30-32) e a comunidade dos discípulos (9.33-37), sendo que este segundo tema é novamente tratado em 10,36-45. Nos paralelos do anúncio da paixão (Mt 17,22-23; Lc 9,43b-45) percebemos que somente neste Evangelho se anuncia simultaneamente a morte e ressurreição. Já em relação à questão sobre “maior/primeiro” tendo a criança como mediação, os paralelos encontram-se em Mt 18,-5 e Lc 9,46-48. No entanto, a frase, ou “máxima”, apresentada em Mc 9.35 (“qualquer que queira ser o primeiro deverá ser o último de todos e servir a todos), e no caso de Lucas não inclui os termos “primeiro” e “servo” (protos/diáconos), colocando no lugar “menor” e “grande” não citando o serviço. Mt trata do “primeiro/último” e “servo” no marco da discussão provocada por Tiago e João. Mc, na narrativa da discussão entre Tiago e João, repetirá: “quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (10.44). Já Lucas apresentará a máxima dentro da metáfora da “porta estreita” (Lc 13.22-30) concluindo: “contudo, há últimos que virão ser os primeiros que serão últimos”. Estas observações levantam questões como: por que o anúncio da morte não estava completo sem o anúncio da ressurreição, e por que Mc reafirma o serviço com vínculo de autoridade na proclamação de Jesus?

Morte e Ressurreição na comunidade perseguida (9,30-32)

O primeiro texto, que aqui devemos chamar de “anúncio da paixão e ressurreição” (9.30-32) começa dizendo que Jesus estava indo secretamente para a Galileia, como um “fugitivo”, situação vivida por esta comunidade após a perseguição promovida por Nero em Roma (aprox.64 d.C.), coisa que não aparece em nenhum dos paralelos sinóticos. Assim devemos entender a denúncia das forças de morte, de perseguição e violência, quando o “Filho do Ser Humano” e estregue nas mãos dos “homens”, isto é, aquelas pessoas que sendo feitas irmãs em Cristo negam sua própria humanidade oprimindo, matando, discriminando, excluindo, outras pessoas. Desta forma a ressurreição é essencial para, no meio da perseguição e morte, manter a esperança do surgimento ou ressurgimento de uma humanidade de irmãs e irmãos.

O poder do serviço à luz da presença das crianças (9,33-37)

v.33 – O questionamento: A segunda parte começa com dizendo que Jesus “interrogou/perguntou” (eperóta). A interrogação é um conhecido método de mestres da antiguidade, que nenhum Evangelho menciona mais do que este. A pergunta de Jesus é a pergunta da comunidade (representada pelos discípulos) é sobre qual seria a liderança adequada diante de uma situação de morte e violência, dentro de um sistema opressor, excludente e desigual?

v.34 – O silêncio: Ao questionamento lhe segue o “silêncio”, porque haviam “discutido” (dilektesan) pelo “caminho”. O “caminho” é outra característica desta narrativa, que não aparece nos outros sinóticos, de novo marca de uma comunidade à caminho, entre a dor da violência e da morte e o horizonte de um mundo novo e melhor.

v. 35 – Jesus ouve e orienta a comunidade perseguida: Jesus, que caminha junto a comunidade perseguida, consegue ouvir aquilo que é comentado com receio, aquilo que não é possível discutir abertamente, e então apresenta o princípio orientador: “Quem quiser ser o primeiro seja o último de todos e servo de todos” (v.35b, do grego). O poder da vida, o anti-poder da morte, é aquele que emerge das pessoas que no sistema desigual e excludente são as últimas e que se constrói no serviço, diaconia, na ação compassiva e solidária.

v.36 – A criança, imagem da nova humanidade: As crianças, que são apresentadas de diversas formas no Segundo Testamento, desde crianças de colo até jovens, aqui são chamadas “paidon”(crianças muito novas, nenéns). A criança é o símbolo do esperançar (da qual falava Paulo Freire), totalmente indefesa e dependente, na mesma situação das pessoas perseguidas, excluídas, querendo o colo da segurança, da proteção, da partilha do pão e do afeto.

v. 37 – Acolhimento solidário, espaço de resistência e superação: O poder do serviço se exerce no acolhimento. As comunidades perseguidas devem ser comunidades que abraçam todas as pessoas vulneráveis, todas a vítimas da violência, todas as excluídas e discriminadas, e proclamam a igualdade de acesso a tudo, inclusive ao amor.

A conexão com as outras leituras A leitura do Livro de Sabedoria, reflete a época do domínio grego, início do domínio romano, descrevendo como as forças de morte querem a morte da pessoa justa que lhes incomoda, que lhes faz lembrar da necessidade de justiça e igualdade (Sb 2,12), Já A Carta de Tiago nos traz outra máxima para o caminho de resistência contra os poderes de morte e para o exercício do poder do serviço: “é em paz que se semeia o fruto da justiça, para quem promove a paz” (Tg 3,18). A diaconia e a opção pelas pessoas últimas são ação de semear a verdadeira e douradora paz, a paz que não exclui, mas acolhe.

24º Domingo do Tempo Comum

24º Domingo do Tempo Comum

Dia: 12 de setembro de 2021

Primeira Leitura: Is 50,5-9a

Salmo: 114, 1-2.3-4.5-6.8-9

Segunda Leitura: Tg 2,14-18

Evangelho: Mc 8,27-35

O Evangelho

A perícope evangélica pode ser definida como um diálogo com os discípulos. A primeira parte (vv. 27-30) é uma unidade narrativa fechada em si mesma, na qual são colocadas em contraste as opiniões das pessoas sobre Jesus e a profissão de fé dos discípulos. Estilisticamente, as duas perguntas de Jesus nos vv. 27b e 29a são semelhantes. Há concordância substancial entre as opiniões populares dos v. 28 e aquelas de 6,14b.15. O v. 28 surpreende pela concisão das informações prestadas pelos discípulos. O loghion sobre o Filho da Humanidade que sofre e ressuscita (v.31) tem analogias nos dois anúncios subsequentes da paixão (9,31; 10,33s.) e devem ser comparados com as fórmulas curtas do anúncio da paixão em 9,12; 14,21.41 (cf. o anúncio da ressurreição em 9,9). Todas as passagens citadas concordam no uso do título “Filho da Humanidade”. As três predições em 8,12; 9,31; 10,33s. concordam em mencionar a morte e ressurreição após três dias. A expressão de 8,31 difere dos outros dois anúncios da paixão porque considera o caminho de Jesus para a morte como uma necessidade (dei) e, ao contrário dos outros dois, evita a ideia de entrega (paradidonai).

No início e no final estão os discípulos e, entre eles, Pedro como porta-voz. No centro temos a afirmação sobre o destino do Filho da Humanidade. Tudo acontece na rua. Um novo grupo de oponentes entra em cena. Se até agora os oponentes eram principalmente os fariseus e escribas, ouvimos pela primeira vez sobre o destino da morte que começa a ser preparado pelos anciãos, os principais sacerdotes e os escribas. Parte daqui um arco que se estenderá até a paixão. A perícope é caracterizada pelos verbos do diálogo. O questionar, o falar, o responder, o comandar, o ensinar e repreender tornam vivo esse diálogo. Deve-se notar que a confissão de Pedro – apenas aqui nesta seção – é caracterizada como uma resposta. O diálogo vivaz entre Jesus e Pedro constitui o clímax dramático da história.

Resta notar que a morte e ressurreição de Jesus são interpretadas cristologicamente e não soteriologicamente no primeiro anúncio da paixão. A relevância do anúncio da paixão é sublinhada pela constatação de que Jesus falou a palavra com franqueza. A parresia não está em contradição com a proibição de falar. Essa se refere ao falar com aqueles de fora. A franqueza do discurso de Jesus é direcionada ao grupo de discípulos. A parresia é a franqueza no falar, aquela franqueza de que nada fica em silêncio ou se esconde. Em 4,33, foi dito que Jesus falava ao povo em parábolas, agora ele fala livremente aos discípulos. A evolução do pensamento reside no fato de que a palavra da pregação recebe um conteúdo cristológico nítido graças ao anúncio da Paixão e da Ressurreição. Os discípulos e discípulas, que um dia terão que espalhar o evangelho, devem ver em Jesus a fonte de palavra que deve ser levada a outros.

No curto episódio que se segue, Pedro, que pouco antes havia reconhecido Jesus como o Cristo, agora protesta contra a ideia da paixão. Visto que Jesus já está decidido em seu caminho, ele se volta para os discípulos e para Pedro. Segundo Mc também os discípulos, atingidos pelo olhar de Jesus, recebem sua reprovação. A ordem “para trás mim” (cf. 1,17.20; 8,34) quer chamar o discípulo de volta ao seguimento e, portanto, a seguir o caminho que Jesus já está percorrendo. O discípulo ameaça se desviar. O fato de Satanás ser reprovado indica que estamos nos referindo à tentação que existe na objeção de Pedro. Certamente o Filho da Humanidade não pode mais ser desviado de seu caminho. Satanás indica o oponente que pode estar presente em muitos. Ele é aquele que distorce a verdade e conta a mentira. Já no início da era cristã, os hereges são considerados instrumentos e filhos do diabo (Rm 16,17-20; 2Cor 11,13-15; At 13,10).

O perigo mais grave para os discípulos e a comunidade é rejeitar o Crucificado.

Jesus anuncia o genuíno logos do Evangelho. Pedro, que deve ser visto novamente junto com os discípulos e discípulas, se rebela contra o caminho da paixão. Por isso o seu “ser-discípulo”, correu sério perigo e é reprovado e tratado como Satanás; isso significa que o/a discípulo/a deve reconhecer o caminho de Jesus rumo à paixão e aceitá-lo como seu. Jesus só pode ser totalmente compreendido depois de concluído o seu caminho. À época de Mc, quando esplêndidas figuras de redentores eram esperadas, a pregação do Filho da Humanidade rejeitado e morto era indesejável e escandalosa. Mas esta mensagem toca intimamente os crentes, se observarmos que eles são colocados no mesmo plano de Jesus. A profissão de fé externa pode ser fácil, mas sua implementação é difícil. O Evangelho pode ajudar a garantir que a profissão de fé expressa com os lábios amadureça na fé autêntica.

Jesus ordena que à multidão venha até ele com os discípulos. A reunião da multidão e dos discípulos prepara 9,14: mais concretamente significa que depois do protesto de Pedro, os/as discípulos/as foram confrontados com uma nova decisão. Depois do anúncio da paixão do Filho da Humanidade, podemos entender o que significa ser discípulo e discípula. Quem se decide a segui-lo, deve satisfazer duas condições. A primeira condição é negar-se, renunciar-se, colocar a existência de discípulo/a acima dos próprios desejos e projetos. A segunda condição é a disposição de aceitar a cruz. O “siga-me” (opisō mou) está ligado à reprovação de Pedro (8,33) e ao primeiro chamado ao seguimento (1,17).

O “tomar a sua cruz” expande a necessidade de prontidão para morrer a fim de seguir Jesus e inclui todas as tribulações e tentações que podem acontecer com o/a discípulo/a. A palavra de Jesus avança na ideia de que a salvação da vida agora depende da união com ele. Assim, o seguimento da cruz aparece sob uma nova luz. O fato de Mc introduzir o acréscimo do Evangelho como critério de decisão manifesta a situação de vida das comunidades. De agora em diante, o Jesus terreno está acessível a nós por meio do Evangelho.

A leitura do Cântico do Servo em Is ajuda a perceber o pano de fundo veterotestamentário da serenidade de Jesus em afrontar sua missão e torna nítida a identificação que Jesus faz, em sua pessoa, do Filho da Humanidade e do Servo.

23º Domingo do Tempo Comum

23º Domingo do Tempo Comum

Dia: 05 de setembro de 2021

Primeira Leitura: Is 35, 4-7a

Salmo: 145, 7.8-9a.9bc-10

Segunda Leitura: Tg 2, 1-5

Evangelho: Mc 7, 31-37

O Evangelho

O Evangelho de hoje inicia com um percurso muito estranho de Jesus: Saindo de Tiro, ele veio por Sidônia até o mar da Galileia, através dos territórios da Decápole (v. 31). Este trajeto seria como se alguém para ir do Rio de janeiro a São Paulo passasse por Brasília, ou fosse de Porto Alegre a Pelotas e passasse por Passo Fundo!

Trouxeram‑lhe um surdo e gago (v. 32). O surdo e gago (em algumas traduções, mudo) não se aproxima de Jesus e nem pede a cura, mas é trazido por pessoas anônimas. A surdez, na tradição profética (Is 42,18-19; Jr 5,21; Ez 12,2), é símbolo da resistência à mensagem de Deus. Neste evangelho, semelhantemente, ela é relida como símbolo de resistência a ouvir o anúncio e a proclamar a boa nova.

Levando‑o em particular, para longe da multidão (v. 33a). No evangelho de Marcos, a expressão em particular é aplicada sempre aos discípulos (4,34; 6,31-32; 9,2.28; 13,3): quando necessário para dissipar dificuldades provocadas por seu ensinamento, Jesus explica tudo novamente a seus discípulos “em particular”, isto é, separadamente e de forma exclusiva. Mas o que é ensinado “em particular” serve para fortalecer os discípulos na sua missão. Por isso, o mal que pode afligir a comunidade e o discípulo é não proclamar a boa nova a todos os povos.  

Nov. 33b, Jesus põe seus dedos nos ouvidos do surdo-gago, cospe na língua dele, ora e dá uma ordem. O gesto de cuspir na língua do surdo-gago/mudo, para nós, é algo estranho e, para alguns, até nojento. Na Antiguidade, porém, a saliva era considerada um elemento medicinal, ainda mais a saliva de um profeta. Ou seja, trata-se de uma ação que deve ser lida no conjunto dos ritos de cura do mundo antigo.

O gesto curandeiro de Jesus produz seu efeito e o rapaz começa a ouvir e a falar com desenvoltura. Não obstante, Jesus recomendou-lhes que não dissessem nada a ninguém (v. 36). Como em diversas ocasiões, o Jesus de Marcos ordena que não se divulgue por aí o que ele faz. É o chamado “segredo messiânico”.

Por que essa mania de segredo? O evangelho não nos responde. Aliás, já desde 1,1 estamos cientes do messianismo de Jesus. No evangelho de Marcos, vários títulos judaicos são dados a Jesus, mas, nenhum título é suficientemente denso para exprimir o real significado de Jesus de Nazaré. A finalidade desse “segredo messiânico parece ser o seguinte: corrigir progressivamente a falsa ideia que os judeus e os discípulos tinham em relação ao Messias. Com efeito, a revelação de quem Jesus realmente é só será concluída e plena após sua morte e ressurreição, isto é, somente após a experiência pascal os discípulos compreenderão perfeitamente quem é Jesus: sua pessoa, sua obra, sua doutrina. Por isso, a ordem de silêncio está unida à cruz e à ressurreição.

Ele faz surdos ouvir e mudos falar (v. 37). Na trama do evangelho de Marcos, para levar os discípulos a reconhecer que Jesus é o Messias, este milagre tem valor simbólico: é surdo-gago/mudo quem não é discípula/o. Em outras palavras, ouvir e falar livremente, é necessário tornar-se discípula/o. Não basta a palavra, é necessário um contato íntimo com aquele que cura. O contato é cada vez mais íntimo: dedo nos ouvidos, saliva na língua, palavra nos ouvidos. Tanto a saliva quanto a palavra saem da boca de Jesus para criar as condições necessárias para a fé. Só pode ser discípula/o quem tem intimidade com Jesus; só pode ser discípula/o quem deixa que Jesus coloque suas palavras nos ouvidos e na língua.

No Antigo Testamento

Na primeira leitura, o profeta Isaias (35,4-7a) anuncia a chegada de Yhwh como o go’el de Israel. No Antigo Testamento, a palavra go’el significa, primeiramente, “resgatador”. Trata-se de um parente próximo (irmão, primo, tio) que tem vários encargos, entre eles, casar-se com a viúva de seu parente, para suscitar uma descendência ao falecido (cf. o caso de Booz e Rute); resgatar uma propriedade da família, caso tal propriedade (casa ou campo) tenha sido tomada como pagamento de uma dívida e socorrer um parente que sofre violência.

No Antigo Testamento, Yhwh é chamado de “o go’el de Israel”, porque ele vem resgatar Israel da escravidão e humilhar os inimigos de seu povo. Por isso o profeta proclama “Coragem! Não temais” (v. 4) e “Vosso Deus vem salvar-vos” (v. 5). A chegada de Yhwh e sua atividade como go’el do povo humilhado é motivo para recobrar a coragem e a esperança, porque ele fará acontecer uma realidade nova: desaparecerão as enfermidades e as deficiências físicas (vv. 5-6a), “o sertão vai virar mar” (vv. 6a-7a), será expulso tudo o que é ameaçador (v. 7b). O juízo de Yhwh será contra os inimigos do seu povo.

Hoje

Vemos como este anúncio profético é atual: em tempos de pandemia, o profeta nos convida a acreditar que Yhwh sabe muito bem que, por causa do desrespeito à dignidade humana, o povo sofre. O profeta nos convida a esperar: nosso Deus é o Deus da vida e não deixará de se vingar dos que promovem o sofrimento e a morte.

22º Domingo do Tempo Comum

Dia: 29 de agosto de 2021
Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23
Salmo: 14,2-3a.3cd-4ab.5
Primeira Leitura: Dt 4,1-2.6-8
Segunda Leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27

Evangelho

A perícope se situa entre as duas multiplicações do pão (Mc 6,30-44 e 8,1-10), como consequências da compreensão cristã do pão partilhado para todos, enfrentando o reducionismo excludente farisaico de Jerusalém. O pão partilhado deixa os discípulos alimentados sem preocupação com as leis da pureza e as tradições que os fariseus e escribas criaram como cerca ao redor da lei, interpretando-a de acordo com sua visão rigorista. Para Jesus, o que conta é o amor, ilustrado pelo pão partilhado. Porém, os representantes da religião oficial têm outro projeto. Eles estão presos às leis e tradições que se tornaram um fardo para o povo pobre iletrado, para os doentes, deficientes e estrangeiros. Para escribas e fariseus importavam mais as leis e as tradições do que o alimento do povo. Era uma prática religiosa que só olhava para o céu e se esquecia das carências do povo. Na sua visão, se as leis da pureza forem observadas Deus está bem servido, sem nenhuma preocupação com os necessitados.   

A prática de Jesus lembra que uma religião apenas preocupada com leis e tradições perdeu o espírito original da lei e já não satisfaz os desígnios de Deus. A lei, na sua origem, devia favorecer a vida do povo, porém, com o passar do tempo, foi-se esquecendo o espírito da lei, ficando apenas na letra morta e, além disto, depois do Exílio, os escribas criaram mil e uma tradições para explicar e interpretar a lei. Assim sendo, a lei resumida em 613 mandamentos vem agora acrescida com mais penduricalhos da tradição, seu número ficou astronômico. Davam a estas tradições o mesmo valor da lei. Só um expert seria capaz de observar as exigências da religião. O povo simples, que ignorava esta coleção de leis e tradições, era visto como maldito (Jo 7,49).

Um dos pontos da lei que os escribas levavam ao extremo, foi a questão da pureza (cfr. Ex 40,12-32; Lv 15), que originalmente se destinava aos sacerdotes, mas os escribas e fariseus universalizaram. Na sua compreensão, este era o nó górdio do acesso a Deus. Como o povo simples não podia observar tudo isto, se via privado de Deus. Este é o contexto de Mc 7,1-23.

Jesus não se preocupa nada com estas leis e tradições. Ele toca no leproso (Mc 1,41 = Lv 13,43s), se deixa tocar pela mulher hemorrágica (Mc 5,27 = Lv 15,19), come com pecadores (Mc 2,19ss), etc. No relato de hoje se desenha o choque da prática de Jesus com a dos escribas e fariseus. Fica evidente que agora, o eixo está deslocado. Para Jesus não contam práticas externas, leis e tradições, mas tão somente, o amor ao próximo que é o verdadeiro culto a Deus.

A questão da pureza, não era, para os fariseus, uma questão de higiene, mas apenas uma questão ritual, pois julgavam todos os pecadores impuros e, entrando em contato com qualquer objeto tocado por tais pessoas, tornaria os observantes impuros. Logo, ao se lavar, não pensavam em eliminar germes de doenças, mas queriam estar livres do contato com outras pessoas que julgavam impuras, o que por si só, já era uma discriminação e falta de amor. Então, na resposta de Jesus se mostra que a impureza não está no contato exterior com pessoas, ou com alimentos, mas naquilo que vem de dentro do coração. Antes de pensar em fazer abluções, o fariseu já estava contaminado pelo preconceito que nasceu em seu coração elitista e condenava os que não podiam observar as leis. Vinha de dentro.

Jesus, portanto, não apenas aboliu as tradições dos fariseus e escribas, mas também as leis alimentares que se encontram em Lv 11 e Dt 14, pois ele declarava tudo puro (cfr. At 10,15). Isto tudo era uma superação dos estreitos caminhos de uma igreja ainda atrelada ao AT e que agora, devia se abrir aos povos estrangeiros que desconheciam tais observâncias.

Relação com as outras leituras

Quando a lei leva à proximidade com Deus e à justiça, ela é boa, como se lê em Dt 4,6-8 (1ª leit.). A religião pura, que agrada a Deus, é cuidar dos órfãos e viúvas, ou seja, amor aos carentes (2ª leit.). Portanto, não são leis externas que levam os fiéis a Deus, mas o compromisso com os sofredores.

21º Domingo do Tempo Comum

Dia: 22 de Agosto de 2021
Evangelho: Jo 6, 60-69.
Primeira Leitura: Js 24, 1-2a.15-17.18b.
Segunda Leitura: Ef 5, 21-32.
Salmo:  33, 2-3.16-17.18-19.20-21.22-23

O Evangelho

O Quarto Evangelho tem como uma das suas características trabalhar a revelação de Jesus Cristo (Palavra Encarnada; cf. Jo 1) através de sinais que se concentram nos primeiros doze capítulos. Por outro lado, podemos dizer que o capítulo 6 deste Evangelho se dedica à comensalidade, com temas como a partilha (6,1-15), Jesus como Pão da Vida/Corpo e Sangue (6,22-59), e as reações dos discípulos a esta teologia (6,60-71). Portanto, o Evangelho deste domingo deve ser entendido neste contexto. No contexto maior este Evangelho descreve tensões e divisões entre as pessoas que formavam a comunidade de Jesus como reflexo de tendências que começavam a se configurar na igreja dos primeiros tempos. Neste sentido é bem significativa a afirmação “muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (6,66). Assim o Evangelho explicita a quebra da comunhão sacramental como consequência da incompreensão do mistério de “Jesus/Pão da Vida/Corpo e Sangue”.

O texto em si

A primeira questão a ser levantada é a delimitação da perícope. Sem dúvida, o versículo 60 abre a parte da narrativa que reflete a reação dentro da comunidade de Jesus em relação às “duras palavras” (skleros estin outos o logos). Reação que se conclui com afirmação de Pedro (“Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”, v. 69). A narrativa vai concluir com o anúncio da traição de Judas (v.70-71).

Vejamos como se dá o tecido de palavras neste texto que aborda o tema delicado da partilha e do mistério eucarístico:

Muitos dos discípulos – “Os muitos discípulos que ouviram e se escandalizaram” (poloi) nos versículos 60-61, se conecta no v. 66 com os “muitos discípulos que voltaram atrás”. Espírito e VidaNo versículo 63 aparece duas vezes a palavra “Espírito” (pneuma) e vida em duas formas: vivifica/dá vida (zoopoiyoun de Zoe = Vida + poyeuo = Fazer/Produzir), rodeado pela referência ao Filho (do Ser Humano, v. 61), Jesus (v.64) e o Pai (v.66).

Palavras/declaração/falar/dizerOutro aspecto interessante é a diversidade de termos para se referir à forma como Jesus comunica o mistério em cada uma destas partes. Primeiro (v.60) diz que são “duras são estas palavras” (logos). Nos vs. 63 e 68, se refere a “declaração/discurso” (remata) de Jesus como Espírito e Vida (Eterna). No v. 65 Jesus fala (eleguen) e afirma ou “reafirma” (eireka). Esta diversidade de formas para se referir a apresentação do mistério mostra a dificuldade do assunto abordado. A palavra (sentido duro do mistério) – v. 60 – se transforma em declaração que manifesta o Espírito que dá Vida (v.63) e permite, então, dizer e reafirmar o caminho de duas mãos entre o Filho e o Pai (v.65).

A dificuldade de participar do novo discipulado eucarístico.

É importante observar que este discurso (cf. 6.59) foi feito em uma Sinagoga, onde não havia espaço para o mistério eucarístico apresentado em Jesus. Mas, por outro lado entre o grupo dos “discípulos” também havia pessoas que tinham dificuldade de descontruir dentro a visão legalista (da carne) e abraçar o mistério e partilha que se revelam no Jesus eucarístico, como entendia a comunidade de João.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura é a conclusão do Livro de Josué onde todo o processo da dádiva divina da terra é consumado na aliança entre as tribos e este Deus que luta junto ao seu povo. O chamado a unidade presente no discurso de Josué está centrado na escolha entre as divindades que justificavam as monarquias derrotadas pelas tribos e o Deus Libertador do Egito e força na luta pela terra, a partir da própria experiência de luta de partilha descrita neste livro (Js 24,15-16). Aqui, semelhante à proposta da comunidade de João, a Palavra da Aliança se traduz em espírito e vida para o povo. O sentido da unidade da mesa não pode ser o sentido patriarcal da sinagoga, mas o novo sentido da igual dignidade de todas as pessoas na mesa eucarística. No texto da Carta aos Efésios (5,21-32) os primeiros quatro versículos falam de uma teologia de submissão da mulher diante do homem (v.21-24), no entanto, esta teologia e relativizada ou até desconstruídas pelos seguintes (v.25-33), onde a mulher deve ser considerada pelo homem como seu próprio corpo. De novo a alternativa entre seguir os velhos padrões ou abraçar o mistério que é Espírito e Vida.

20º Domingo do Tempo Comum. Assunção de Nossa Senhora

Dia: 15 de agosto de 2021
Primeira Leitura: Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab
Salmo: 44,10bc.11.12ab.16 
Segunda Leitura: 1Cor 15,20-27a
Evangelho: Lc 1,39-56

Os textos da Sagrada Escritura aqui relacionados, inserem-se numa visão redentora da humanidade. A celebração da assunção de Maria acontece motivada por perícopes bíblicas que compõem este quadro maior da obra redentora de Cristo, sem a qual não entenderemos o papel desempenhado por Maria.

O texto do Apocalipse abre o pórtico da atuação da Mulher/figura da Igreja/Maria, no plano escatológico. Aqui, a maternidade de Maria é teologicamente apreciada como maternidade messiânica.

O capítulo 15 de 1Cor, direciona nossa atenção para a chave interpretativa que une os textos desta celebração: “em Cristo todos receberão a vida”.

O louvor de Maria dá início aos cânticos de exaltação do NT. Em Lc 1 e 2 há cinco deles: 1. o Magnificat (Lc 1,46-55); 2. o Benedictus (Lc 1,68-79); 3. o Gloria in excelsis (Lc 2,14); 4. o Nunc dimittis (Lc 2,29-32); 5. o louvor da profetisa Ana (Lc 2,38). Os hinos em Lc têm a função de explicar pneumatologicamente os acontecimentos. Maria é convocada a interpretar o evento escatológico do qual, agora, faz experiência o povo de Deus. Não fala só de si mesma; aqui toda a salmodia do povo de Deus do antigo pacto atinge o seu vértice e é superada.

Acrescentemos ainda o seguinte: o Magnificat é um cântico com franco teor escatológico. Por essa razão, é digno de nota justamente que a maioria das formas esteja no aoristo, isto é, na forma verbal do pretérito, embora se trate primordialmente de eventos cujo cumprimento ainda estava por vir.

Em Lc 1,42 a frase “bendita és tu entre as mulheres”, faz ecoar palavras de bênção semelhantes a Jz 5,24 e Jt 13,18; e “bendito é o fruto do teu ventre” ecoa a bênção mosaica prometida aos obedientes, em Dt 28,1.4. Esses ecos possibilitam ver que o foco recaía, além de Maria individualmente, também sobre o povo de Deus como um todo.

O v.43 com a expressão “meu Senhor” (tou kyriou mou) ecoa o estilo do Sl 110,1 (veja o paralelo em Lc 20,41-44; At 2,34) e, portanto, aponta para a natureza messiânica de Jesus. O v. também faz ecoar 2Sm 6,9, embora a relação entre Maria e a arca da aliança não seja tão evidente.

O conjunto a seguir, formado pelos vv. 46-55, compõe o conhecido Magnificat que, tanto na forma quanto no conteúdo se baseia em vários hinos do AT.  Da perspectiva do conteúdo, o correspondente mais próximo talvez seja o cântico de Ana em 1Sm 2,1-10, em que se encontra o tema da libertação, quando o Deus santo de Israel olha para o estado humilde de sua serva. Em ambos os textos, esse foco pessoal se transforma no tema geral da inversão, quando Deus exalta os humildes e humilha os poderosos. Na forma do texto encontramos paralelos com vários Salmos (note-se a influência dos Sl 34; 35; 89; 103).

No v. 48 a referência à “condição humilde” (tapeinōsis) tem sido compreendida como uma referência à humilhação sofrida pela virgem prometida em casamento que agora engravidou; mas nem o contexto, nem os correspondentes mais amplos com os relatos de nascimento do AT apoiam essa interpretação. Um correspondente mais próximo acha-se em 1Sm 1,11, em que o termo aparece em referência ao reverso da sorte de Ana em sua gravidez. Porém, como no cântico de Ana, em 1Sm 2,1-10, tapeinōsis também pode referir-se à humilhação do povo de Deus oprimido. Ou seja, evidencia-se uma importante conexão entre a sorte do indivíduo e o destino do povo de Deus. No v. 52, a expressão, hypsōsen tapeinous “exaltou os humildes” se pode denominar uma expressão estilizada, convencional (cf. Jó 5,11). O adjetivo tapeinous (“os humildes”) funciona como rótulo de status econômico e, também, como identificação que se refere ao povo de Deus.

Não pode ser desconsiderada a importância do reverso da sorte do “pobre” (ptōchos) em todo esse Evangelho (cf. 4,18; 6,20; 7,22; 14,13.21; 16,20-22).

Entre os vv. 49-51 aparecem explícitas referências que conectam este cântico ao AT. No AT, o título “o Poderoso” (ho dynatos) é usado em referência ao Deus guerreiro (cf. Sf 3,17) e “grandes coisas” (megala) lembra os feitos poderosos de Deus durante o êxodo (Dt 10,21). A expressão “sua misericórdia” (to eleos autou) pressupõe o relacionamento da aliança entre Deus e seu povo, e a afirmação de que “sua misericórdia passa de geração para geração para os que o temem” pertence à linguagem das tradições litúrgicas de Israel. Tanto nas tradições do êxodo (Ex 6,1-6; Dt 3,24; 7,12) quanto nas do novo êxodo (Is 51,5.9; 53,1), encontram-se as figuras do braço/mão de Deus em referência ao seu poder. O uso aqui do tempo aoristo (e em outros lugares do Magnificat) pode ser interpretado como afirmação de certeza dos atos escatológicos de Deus. Três passagens do AT fornecem o contexto para o desfecho do Magnificat: Is 41,8-9; Sl 98,3 e Mq 7,20. Todas as três estabelecem a conexão entre as promessas abraâmicas e o ato redentor de Deus em favor de seu povo. As ideias (misericórdia, promessa aos antepassados, Abraão) apontam para a esperança escatológica da libertação definitiva, da qual a noção teológica da Assunção da mãe de Jesus é sinal prenhe de esperança.

19º Domingo do Tempo Comum

Dia: 08 de agosto de 2021
Evangelho: Jo 6, 41-51
Primeira Leitura: 1Reis 19,4-8
Segunda Leitura: Ef 4,30 – 5, 2
Salmo: 33,2-3.4-5.6-7.8-9

Jesus

O Evangelho de hoje pertence ao chamado “discurso do pão da vida” (Jo 6,26-59), que é uma releitura do episódio do maná, no início da peregrinação pelo deserto, em Êxodo 16.

A afirmação de que os judeus murmuravam (v. 41) é claramente uma releitura de Ex 16,2-8. Há, no entanto, diferenças. No Êxodo, o motivo da murmuração era a falta de pão; em João, os judeus murmuram porque Jesus afirmou: “Eu sou o pão que desceu do céu” (vv. 35 e 38). Eles não aceitam a origem celeste, proclamada por Jesus, porque partem da evidência da condição humana: Este não é Jesus o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? (v. 42). Esta incongruência faz parte do estilo de narração próprio de João chamado de “técnica do mal-entendido”: Jesus fala uma coisa, o interlocutor entende outra, e este engano provoca uma discussão catequética. Assim acontece com Nicodemos (Jo 3,1-21) e com a samaritana (Jo 4,7-42).

No v. 44, Jesus interrompe a murmuração e recomeça os ensinamentos: Ninguém pode vir a mim a não ser que o atraia o Pai que me mandou. Isso significa que, para chegar até Jesus, é preciso deixar-se levar pelo Pai. Sem dúvida, a fé tem como fonte primeira a iniciativa de Deus, mas não exclui a responsabilidade do ser humano. A ação de Jesus e a do Pai são circulares e interligadas: tudo passa por Jesus e, no entanto, tudo procede do Pai e no Pai terminará. O evangelista utiliza o verbo grego hélkō (atrair), que denota o uso de força, como sugere Os 11,4: Eu os atraía com vínculos humanos, com laços de amor. Esta afirmação de Oseias tem como pano de fundo a resistência humana à ação divina: o ser humano resiste a uma atração repleta de amor.

O mesmo v. 44 termina com a promessa sobre o destino de quem aceita entrar nesta dinâmica circular da ação divina. Jesus afirma: eu o ressuscitarei no último dia. A ressureição era aceita e defendida pelos fariseus como prêmio final para os que obedeciam a Lei. Para Jesus, a condição para a ressureição é adesão a ele: Em verdade, em verdade vos digo: quem crê tem a vida eterna. Esta ideia está repetida logo adiante, no v. 47 e em Jo 8,51; 11,25.

Para fundamentar sua afirmação, Jesus cita o profeta Isaias: E todos serão instruídos por Deus (54,13). Com isso, Jesus garante que a vontade salvífica do Pai é universal e não exclui ninguém: nem gênero, nem raça, nem credo. Jesus anuncia que a nova comunidade estará aberta a todos os que escutam e colocam em prática os ensinamentos do Pai (vv. 45-47).

No v. 48, Jesus repete o que já havia dito nos v. 35: eu sou o pão da vida. No Evangelho de João, o termo grego zōê (vida) não significa unicamente a vida física; define, mais adequadamente, qualidade de vida que é definitiva e que, portanto, não está sujeita à morte. Desde a criação, o Projeto de Deus é dar a vida. Este projeto de vida tem seu ápice na encarnação e missão do Filho (Jo 1,1-4). Por isso, Jesus – eu sou o pão da vida – deve ser entendida como “eu sou o pão que liberta da morte e faz participar da vida definitiva em Deus”. Fica clara a contraposição entre Jesus, como pão da vida, e o maná e a Lei. Na compreensão rabínica, a Lei é a fonte da vida e, por isso, é chamada de “pão”. Mas a vida trazida pela Lei não é eterna: um dia termina. O projeto salvífico do Pai realizado pelo Filho, o pão que desce do céu, supera a vida conforme a Lei: Quem comer deste pão viverá para sempre (v. 51b).

A condição para receber a vida é reconhecer o amor de Deus expresso no projeto de Jesus e aderir a ele. O evangelista usa metáforas para explicitar o que significa tal adesão: escutar a voz do Filho de Deus (5,25), aproxima-se dele (6,37), aceitar suas exigências (6,63), comer o pão da vida (6,50). Portanto, a missão de todos os cristãos é levar a vida definitiva a todos os seres humanos; para isso, é necessário demonstrar concretamente o amor na partilha (6,5-13).

A técnica do mal-entendido está na base dos vv. 51-58 e envolve a palavra “carne”. Convém recordar que, no evangelho de João, o que se poderia chamar de “instituição da Eucaristia”, não é ocorre na última ceia (Jo 13–16), como em Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,14-38, mas sim no capítulo 6, no “discurso do pão da vida”. No v. 51, Jesus afirma: O pão eu darei é a minha carne para a vida do mundo”. O pão dado por Jesus é agora qualificado como carne (sárx) e não corpo (sōma). Jesus retoma o que já fora afirmado no prólogo do Quarto Evangelho (Jo 1,14): O verbo tornou-se carne. Ao dizer “o pão é a minha carne” e “quem come minha carne”, Jesus afirma que a Eucaristia faz parte do mistério da sua encarnação; por isso, celebrar a Eucaristia não tem a finalidade de produzir objetos de culto e adoração (hóstias consagradas), mas consagrar o alimento que fortalece os cristãos para que possam se comprometer com o projeto de vida e libertação proposto por Jesus. Em outras palavras, quando celebramos a Eucaristia e comemos o pão-carne de Jesus, renovamos e atualizamos nossa opção de realizar o projeto de amor de Jesus em defesa da vida plena.

Isaías

A Eucaristia – a carne e o sangue de Jesus (cf. Jo 6,51-58) dão vida e coragem para o cristão, da mesma forma que, na primeira leitura de hoje, o pão e a água trazidos pelo anjo do Senhor fortaleceram Elias. Este profeta desenvolveu sua atividade no Reino do Norte, durante os governos de Acab (874-853 a.C.) e Ocozias (853-852 a.C.). Em hebraico, o nome Elias é ’ēliyyāhû e significa “Meu Deus é Yahweh”. O nome se torna o lema de seu trabalho: lutar contra os ídolos que legitimam a opressão do povo.

O chamado “ciclo do profeta Elias” ocupa poucos capítulos na Bíblia: 1Rs 17–21 + 2Rs 1–2. Todo ele é marcado pela luta contra o uso da religião para legitimar desmandos, arbitrariedades e assassinatos que provocavam o aumentou da pobreza e da injustiça. Os dois reis citados – Acab e Ocozias – sacrificaram a vida do povo para impulsionar a economia e o comércio internacional. Com a desculpa de enriquecer o país, esfolavam a população. Contra tal situação Elias se levanta em nome da fé dos antepassados: para ele, a religião ancestral, isto é, o javismo autêntico (“Meu Deus é Yahweh”), é um projeto de vida e dignidade para todos. Qualquer governante que não lute por isso é idólatra e genocida.

A primeira leitura de hoje (1Rs 19,4-8) mostra Elias fugindo da rainha Jezabel. Ele havia desmascarado o projeto idolátrico desta rainha e ela não perde tempo: manda perseguir e matar Elias. O texto é duplamente irônico. Primeiro, porque Elias tem o poder para fazer vir fogo do céu e devorar os representantes religiosos de Baal (1Rs 18,20-40), mas se sente fraco para enfrentar a rainha. A segunda ironia é que, para salvar sua vida, Elias foge para o deserto, o lugar da morte (19,4). Estas ironias têm a função de demonstrar que o profeta é uma pessoa real, não desfigurada por um sentimento devocional falso, comum em quem pratica uma religião desencarnada. O narrador quer mostrar que a força de Elias não vem de uma imagem fantasiosa que ele faz de si mesmo, mas da consciência que tem de ser dependente de Yahweh. Isso está expresso na aparição do Anjo e no alimento trazido: Mas eis que um anjo o tocou e disse-lhe: “Levanta-te e come” (…), havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água (vv. 5-6). O mesmo Deus que salvou o povo no deserto interrompe o esgotamento físico e mental de Elias, enviando duas vezes um anjo trazendo pão e água (v. 7). Fortalecido o profeta caminha quarenta dias e quarenta noites (v. 8) até a montanha de Deus, o Horeb. Ali Elias terá respostas para seus questionamentos. Mas sua missão continua, pois o “longo caminho a percorrer” ainda não acabou.

18º Domingo do Tempo Comum

Dia 1º de agosto de 2021
Salmo: 77,3.4bc.23-24.25.54
Segunda Leitura: Ef 4,17.20-24
Evangelho: Jo 6,24-35

Evangelho

O texto vem na sequência da multiplicação dos pães e do caminhar sobre as águas (6,1-21). Assim sendo, pode-se ver os versículos 22-25 como transição entre estes relatos e o discurso do pão da vida (6,26-51a). A multidão que procura Jesus, não entendeu o sinal da multiplicação dos pães. Os saciados viram o milagre apenas no sentido material. Não foram capazes de transcender. Ao querer torná-lo rei (v.15a), eles esperam vida fácil, uma religião mágica. Buscaram em Jesus a solução de seus problemas, sem assimilar seu projeto de vida e se comprometer com ele. A luta pelo pão é necessária, mas não de forma mágica. Entender o gesto de Jesus e aderir pela fé (v. 29) é não esperar um milagre, mas entrar na lógica dele e com ele construir a sociedade onde já não falte o pão para ninguém. Se este projeto já estivesse em vigor, todos teriam pão e Jesus nem precisaria multiplicar o pão.

Jesus não cede ao pedido dos que o procuram em vista do milagre. Ele os conduz a outra realidade: procurar o alimento para a vida eterna (v.27). Ele inaugura uma nova realidade, novas relações com Deus e com as pessoas. Nesta nova realidade, o pão será partilhado (doze cestos – 6,13) e esta realidade conduz à vida eterna. Para que esta nova realidade aconteça, não se requer obras, como na lógica de Moisés (v.28), mas uma só obra: crer em Jesus, o enviado, o que tem o selo do Pai (v.29). Porém, crer é mais do que saber o que ele ensinou, mas é aderir e se envolver no seu programa de vida.

Os interlocutores de Jesus ainda não entenderam o sinal do dia anterior. Querem mais um sinal (v.30). Aludem a Moisés (v.31). Muita semelhança com certas pretensões hodiernas que querem testar cientificamente as verdades da fé. João se vale deste desejo para transmitir seu ensino. O verdadeiro alimento não foi o maná, mas o pão doado por Jesus, isto é, sua vida. Deus, por meio de Moisés, deu o maná, mas por meio de seu filho, que desceu do céu, deu o verdadeiro alimento para a vida do mundo. O maná, dado aos israelitas, é prefiguração do que o Pai realizou na pessoa de Jesus, a plenificação da revelação de Deus. Nele se realiza totalmente o projeto do Pai que conduz à vida plena que inicia aqui e culmina na eternidade. O maná foi o alimento que possibilitou ao antigo povo chegar à terra prometida, onde pode ganhar o pão com o suor de seu rosto. A multiplicação também deveria ser vista como a transição para uma nova realidade, onde não faltasse o pão a ninguém. O verdadeiro pão que Jesus dá, não era aquele da multiplicação, mas o espírito daí resultante: a partilha e o compromisso de todos com todos

João, de forma pedagógica, como já o fizera no diálogo da samaritana, também aqui aponta que a proposta de Jesus não é entendida. A samaritana quer água para lhe facilitar a vida (4,15), os interlocutores pedem deste pão com o mesmo intuito (v.34).

O v. 35 coroa esta lição. Não se trata de um determinado pão, mas do próprio Jesus que, aceito na fé se torna a realização plena dos anseios humanos. Fome e sede saciados são sinais messiânicos (Is 55,1ss). Aqui, porém, o pão ainda não é uma referência à eucaristia, que só se dará a partir de 6,51. O pão aqui é símbolo do ensino e da sabedoria de Deus (Pv 15,3; Eclo 15,3; 24,21(29). Portanto, aderindo a Jesus, pela fé, realiza-se a vida plena desejada pelo Pai, simbolizada pela não fome e não sede (v.35).

Relação com as outras leituras

Tanto a primeira, como a segunda leituras apelam à conversão. Em Ef 4,17 se exorta a não viver como os pagãos. Em Ex 16 se mostra que, ao coletar o maná, havia gananciosos que queriam acumular (16,16ss). Moisés, como Paulo exortam a evoluir no compromisso da fé. No evangelho percebe-se um crescendo: procura por pão, o que fazer para trabalhar nas obras de Deus, para ouvir de Jesus que se deve superar tudo isto e aderir totalmente ao Filho, o enviado do Pai. Conversão é, antes de tudo, mudança de mentalidade.

17º Domingo do Tempo Comum

Dia: 25 de julho de 2021
Evangelho: Jo 6, 1-15
Primeira Leitura: 2Rs 4, 42-44      
Segunda Leitura: Ef 4, 1-6
Salmo: 144, 10-11.15-16.17-18

A comensalidade em João 6

O Quarto Evangelho, ou o Evangelho da Comunidade do Discípulo Amado tem algumas características contextuais que este autor resume em quatro fases: a) é uma comunidade de pessoas que tinham sido expulsas das sinagogas e tinham testemunhado a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C.; b) ela busca, portanto uma identidade própria, gerando uma “cristologia mais alta” (da pré-existência da Palavra/Verbo/Logos), que busca dialogar com um mundo “pluralístico de crentes e não crentes”; c) há uma divisão entre dois grupos de discípulos de João que estão interpretando o Evangelho de maneiras opostas no que se refere à cristologia, à ética, à escatologia, e à pneumatologia”; c. a incorporação da teologia da pré-existência do Logos, fez com que da “aceitação joanina da estrutura autoritária de ensino da Igreja, provavelmente porque (…) o princípio do Paráclito como mestre não ofereceu defesa suficiente contra os separatistas. A comensalidade se transforma, então em um método, onde Jesus constrói a relação de amizade e amor que permite a comunhão além das diferenças (João 15,13-15). Vejamos como isto acontece em João 6,1-15.

Estrutura do texto

6,1-4. Apresenta apenas Jesus – sem a comunidade de discipulado – e a “multidão” (um termo usado com frequência neste capítulo para se referia ao mundo “pluralístico” do entorno da comunidade), colocado no contexto da “Páscoa dos judeus” (com a qual a comunidade expulsa da sinagoga não mais se identifica, por isso “dos judeus”).

6,5-9. Jesus foca na “multidão” e envolve a comunidade através de Felipe, representando as controvérsias que dividam a comunidade (é de Betsaida, como André e Pedro e promove o diálogo/conversão do Fariseu Natanael, superando o preconceito em relação às pessoas da Galileia; cf. 1,44-48). Também Felipe, depois, participa na controvérsia cristológica quando diz “mostra-nos o Pai e isso nos basta” (14,8).

6.10-13. Jesus apresenta o método da comensalidade: a. cria um “foco” comum de ação pedindo para as pessoas sem diferenciar “mulheres e crianças” como em Mateus (antropos/seres humanos) se assentarem, lembrando do número, certamente referência dos Evangelhos Sinóticos (Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14); b. celebra a Eucaristia (“dando graças”, eucaristésas, mesmo termo usado em Mc 8,6 – para a mesma ação – e em 14,23 para o Sacramento; cf. Mt 26,27; Lc 22,17.19).

6.11-15. De novo fazendo referência às narrativas dos Sinóticos, indica que sobraram doze cestos (um número sempre simbólico) indicando que este método é capaz de reunir todas as comunidades de discípulas e discípulos (cf. Mc 6,43; Mt 14,20; Lc 9,17).

A contribuição da comunidade joanina ao método da comensalidade

O Quarto Evangelho resgata o método da comensalidade já apresentado nos Sinóticos. Esta comunidade que percebe melhor a pluralidade dentro de fora da comunidade de fé, e que conhece as agruras da divisão e da perseguição, enfatiza que a mesa da partilha, que é ao mesmo tempo concreta – alimentando a quem tem fome de pão – e simbólica – alimentando a quem tem fome do amor de Deus, é capaz de unir as pessoas em sua diversidade.

Relação com os outros textos do Domingo

A narrativa de 2 Rs 4,42-44, levanta o milagre da partilha através do profeta Eliseu, algo semelhante ao que acontece com Elias, viúva de Serepta e seu filho (1 Rs 17,9-14). Não se trata de magia, mas da confiança de que através da partilha pode se transformar o mundo onde as pessoas acumulam riqueza sozinhas e morrem de fome sozinhas. Na leitura de Efésios se apresenta o princípio: “com toda humildade e mansidão, e com paciência, suportai-vos mutuamente em amor”, sendo que o termo “suportar” corresponde à palavra grega “anexo” que é a união de “ana” (entre) e “exo” (ter), o que seria “ter entre, ou ter mutuamente”. Portanto, não há como viver o amor sem partilhar o que temos, o que somos, em comunidade.

16º Domingo do Tempo Comum

Dia: 18 de julho de 2021
Primeira Leitura: Jr 23,1-6
Salmo: 22,1-3a.3b-4.5.6
Segunda Leitura: Ef 2,13-18
Evangelho: Mc 6,30-34

O Evangelho

Mc não nos informa sobre o êxito da primeira experiência missionária dos apóstolos e tampouco nos diz o que Jesus teria feito neste intervalo. Sua intenção é mostrar a estreita ligação entre a ação dos Doze e o Mestre que é o ponto de referência para seu ministério.

O v. 30, com sua breve menção sobre o retorno dos apóstolos, se relaciona com o relato da missão.  É o único caso no qual Mc denomina os Doze como apóstolos. O seu status de ser-estado-enviado é realçado. A obra e o ensinamento dos enviados, “tudo o que tinham feito e ensinado”, se refere a 6,12s.

Em 1,35.45 encontramos o retiro a um lugar solitário como motivo redacional. Também a multidão que acorre (6,33), pode ser considerada frequentemente como uma preocupação do evangelista (2,2; 3,7s.20; 4,1s). O fato de eles não encontrarem tempo para comer é uma anotação que havia sido feita de forma introdutória em 3,20 a propósito de Jesus e de seus discípulos.

Segundo Mc, a partida a um lugar solitário tem sua origem na intenção de Jesus de procurar para os discípulos um pouco de refresco e repouso. Este gesto muito humano encontra em Mc uma explicação típica: eram tantas as pessoas que acorriam que eles “não tinham tempo nem de comer” (v.31). A solicitude de Jesus em conceder aos apóstolos um pouco de repouso é anotada só por Marcos.

Jesus e seus discípulos partem sobre a barca e são notados por muitos. A grande multidão é mais rápida que a barca e a precede (v.32). As pessoas que têm sucesso em chegar antes que a barca, se colocam em singular contraste com os discípulos que, na barca, não conseguem preceder Jesus (cf 6,45s).

O v. 34 fazendo referência ao ensinamento de Jesus, subordina a misericórdia de Jesus ao seu ensinamento. Descendo da barca, Jesus se dá conta da grande multidão. A sua misericórdia é mais que uma simpatia humana. Como no Antigo Testamento, a misericórdia é uma qualidade de Deus. Na(s) atitude(s) de Jesus se anuncia a compaixão de Deus pelos seres humanos.

A motivação geral se serve da imagem das ovelhas e do pastor. A ideia do rebanho sem pastor foi usada frequentemente na Bíblia. Como acusação, atinge os pastores que esqueceram seu dever (Jr 23,1; Ez 34,5; 1Rs 22,17) ou faz o povo compreender a punição divina (Zc 13,7). Moisés havia providenciado a nomeação de seu sucessor “para que a comunidade de Iahweh não seja como um rebanho sem pastor” (Nm 27,17).

Relação com as outras leituras

A Primeira Leitura e o Salmo refletem essa realidade da importância do pastoreio como imagem escatológica do Pastor que reúne e guia o povo de Deus com ensinamento, oferecendo-lhe comida. Ao tema do pastor ausente ou malvado, a liturgia contrapõe a compaixão de Jesus para com a multidão. A observação em Mc 6,34 que Jesus começa a ensinar o povo, indica em que coisa consista, antes de tudo, a sua atividade de pastor. Assim fazendo, o milagre que vem a seguir (banquete da multidão em 6,35-44) é colocado sob uma luz precisa, o milagre é subordinado ao ensinamento e inserido nele.