Quarto Domingo do Tempo Comum

Dia 29 de janeiro de 2022
Primeira Leitura: Sf 2,3; 3,12-13
Salmo: 145
Segunda Leitura: 1Cor 1,26-31
Evangelho: Mt 5,1-12a

Não há dúvida que o discurso de Jesus sobre a montanha deva ser considerado torá (cf. Dt 30,14: “esta palavra está bem perto de ti, está em tua boca e em teu coração, para que a ponhas em prática”), visto que a torá escrita não permanece idêntica a si mesma depois da interpretação que recebe: divina eloquia cum legente crescunt!

Devemos nos deixar conduzir por Mt, partindo do pressuposto que ele está aplicando à vida de Jesus precisamente o esquema da torá, o que quer dizer que Jesus se torna a torá vivente. Depois das tentações no deserto, vem a teofania do Sinai e o dom da Lei. O Messias de Mt adquire os traços de um novo Moisés.

No início da perícope aparece o anúncio de uma bem-aventurança. O adjetivo makários “feliz” é tradução grega variável de um substantivo hebraico invariável: ashrê.

Em boa parcela da literatura bíblica encontramos tipos de bem-aventuranças, tecnicamente chamadas de macarismos.

As bem-aventuranças são um tema da literatura sapiencial. São a ciência da felicidade.

É uma fórmula usada como augúrio ou exclamação (Sl 1,1; 2,12, 34,9; 40,5). A bem-aventurança vem de Deus. É feliz quem a Ele se confia (Pr 16,20; Sl 40,5; 84,13), n’Ele se refugia (2,12; 34,9), observa a Lei (Sl 106,3; 112,1; Pr 8,34), vive com sabedoria (Eclo 14,20). Quem é bem-aventurado possuirá vida longa (Eclo 1,18). Israel é feliz por ter a Deus como rei (Sl 33,12-17).

A observância da Lei torna a pessoa feliz (Sl 119,1-2). O mesmo sucede com a meditação da Sabedoria (Pr 3,13; 8,32-33); ou com o temor de Deus (Sl 128,1; Eclo 25,8-11).

Partindo da experiência de que nem o justo é, às vezes, feliz neste mundo, alguns textos do AT proclamam a bem-aventurança dos que virem os últimos tempos (Tb 13,14-16; Eclo 48,11).

No Novo Testamento, bem-aventurado (makários) é relativo a estar feliz com a implicação de que se desfruta de circunstâncias favoráveis.

Muitas bem-aventuranças declaram que a felicidade está à porta, pois chegaram os últimos tempos (Mt 13,16; Lc 1,45; 11,27-28; Jo 20,29). É nesse sentido que Jesus proclamou as bem-aventuranças. O Reino traz a felicidade aos cegos, aos que choram etc. Lucas deu-lhes uma feição social (relacionar Lc 6,20-2 com 4,18-19; 14,13s) e Mateus uma dimensão moral, a justificação (Mt 5,3-11). Lucas faz uso da 2ª. pessoa plural no discurso, conforme o estilo dos profetas. Mateus, por sua vez, usa a 3ª. pessoa singular conferindo às bem-aventuranças um caráter sapiencial e atemporal, válido para todos os que creem.

Ainda no NT, aparecem no Apocalipse 7 bem-aventuranças que expressam aspectos concretos do seguimento de Jesus (Ap 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7.14)

No texto proclamado na liturgia de hoje, por nove vezes aparece o adjetivo makários: porém, a nona bem-aventurança, apresentada em um estilo diverso, é um simples desenvolvimento temático da oitava, a da perseguição.

Estas oito bem-aventuranças se correspondem quiasticamente em pares:

Pobreza – Perseguição (v. 3 e 10)

Aflição – Paz (v. 4 e 9)

Mansidão – Pureza (v. 5 e 8)

Justiça – Misericórdia (v. 6 e 7).

No início e ao final (v. 3 e 10), a motivação das bem-aventuranças é idêntica: “pois deles é o reino dos Céus” (versículos que representam inclusão). E todas as motivações intermediárias (consolação, herança, saciedade etc.) podem ser consideradas especificações desta motivação principal: a chegada do Reino.

No v. 12 aparece pela primeira vez outra palavra-chave de todo o discurso: “recompensa” (misthós). A verdadeira recompensa é a adoção como filhos e filhas de Deus.

Parece certo afirmar que o elemento específico de cada bem-aventurança, seja no AT ou no NT, é o seu tom escatológico, que implica a transformação da situação presente de injustiça e de pecado. Justamente aqui, o texto adquire um significado particular para todos os discípulos e discípulas de Jesus.

Relação com as Leituras

O texto de do profeta Sofonias, assim estruturado, é posto como condição indispensável (“praticai a justiça, procurai a humildade”) para interpretar com frutos o texto evangélico.

A Segunda Leitura funciona como eco onde se escuta: “Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte”.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da
Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana:
Dr. Bruno Glaab – Me. Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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Terceiro Domingo do Tempo Comum

Dia 22 de Janeiro de 2023
Primeira Leitura: Is 8,23-9,3
Salmo: 27,1.4.13-14
Segunda Leitura: 1Cor 1,10-13.17
Evangelho: Mt 4,12-23

O Evangelho

O relato não quer ser uma crônica histórica da missão de Jesus, ou do chamado dos primeiros apóstolos. Antes, quer ser uma interpretação da missão de Jesus à luz de Is 8,23-9,3. Alguns pontos podem ser destacados:

a) O local (vv.12-17): em Cafarnaum, como em toda Galileia moravam judeus considerados de segunda classe pelas elites do templo. Eles estavam distantes de Jerusalém, sob influência de outros povos, muitas vezes idólatras. Muitos não conheciam as leis e também alguns eram incircuncisos. Por isto diz: Galileia das nações, ou dos pagãos. Eram ignorantes das leis.

Mateus apresenta Jesus na perspectiva de Is 8,23ss, mas toma a liberdade de reler este texto de forma livre (Comparar Mt 4,12-16 com Is 8,23-9,1). Ele mostra que a ação de Jesus, chamando à conversão, começa na periferia e não em Jerusalém, onde estão os “perfeitos”. Começa entre os desprezados, mas dispostos a mudar de vida. É por assim dizer, o bom pastor que vai a busca da ovelha perdida (Mt 18,12-14). Jesus realiza o que o profeta Isaías anunciou. Ele é a luz para quem jazia nas trevas. Segundo Mateus, a missão de Jesus é universal e não se encaixa na religião excludente do centro.

b) Os colaboradores (vv.18-22): a iniciativa da vocação é de Jesus, mas exigiu da parte dos quatro chamados a pronta decisão de deixar tudo e seguir. Abandonar tudo, inclusive o pai é mais um sinal. O pai, no contexto da época, é o símbolo da ligação com o passado e com as tradições. Abandonar o pai, quer dizer, romper com o passado, com o mundo simbólico judaico e entrar de corpo e alma na novidade do reino. Isto, para os primeiros cristãos, principalmente os oriundos do judaísmo, era muito custoso.

Jesus não vai, em primeiro lugar, ao centro chamar doutores da lei, as pessoas versadas. Antes chama dois pares de irmãos: Pedro e André; Tiago e João. Estes eram pescadores, portanto, pessoas um tanto rudes, sem instrução, provavelmente desconhecedores da Lei. É entre estas pessoas ignorantes que Jesus recruta seus primeiros colaboradores, pois ele não necessita de raciocínios eruditos, mas de gente decidida e disposta a agir.

O relato da vocação, mais do que detalhar como isto aconteceu, quer ilustrar o chamado nos tempos da redação de Mateus. Os candidatos à conversão deviam ver nos quatro apóstolos o modelo de conversão. Por volta dos anos 80, alguns estavam indecisos, apáticos, sem decisão firme. Mateus quer mostrar que a iniciativa sempre será de Jesus, mas quem receber o convite deve, a exemplo daqueles apóstolos, romper com o passado e com tudo o que lhe dava segurança e se lançar no seguimento do mestre.

c) A ação de Jesus (v.23): Aqui está um resumo do que será desenvolvido nos capítulos seguintes: Jesus ensina, proclama a Boa Nova e cura as doenças. Daqui para frente, é isto que Jesus fará: Ensino (Mt 5-7) e milagres (Mt 8-9). Ele anuncia e age. Nele se encontra a palavra e a ação. O Reino se faz presente por meio da palavra de Jesus e de suas obras. Quando Jesus age nas sinagogas, ele usa o AT. Ele sabe fazer a hermenêutica verdadeira que relê as Escrituras à luz da missão do próprio Senhor Jesus (cfr. 2Cor 314-15).

Relação com as outras leituras

Is 8,23-9,3: O texto reflete a ocupação da Assíria no norte da Galileia: Zabulon e Neftali. As trevas são os anos de dura opressão e violência contra o povo destas aldeias (9,3). O profeta espera uma luz no fim do túnel, ou seja, um futuro rei descendente de Davi que expulsaria os invasores e acabaria com sua truculência. Ele seria luz nas trevas, ou, através de sua ação, viria a luz que representa a intervenção de Deus na história que libertaria o povo da ocupação da Assíria. Mas nenhum rei descendente de Davi conseguiu esta proeza. 

Mais de 700 anos depois de Isaías, o teólogo Mateus, apresenta Jesus como o cumprimento da profecia de Isaías. Agora sim, em Jesus se realiza a esperança anunciada, não propriamente na perspectiva do profeta, pois os Assírios já se foram há séculos. Mas o que então era esperança, agora é realidades: Jesus é a luz para os povos que estavam nas trevas. Para que esta luz esteja entre os pobres e deserdados de todos os tempos, Jesus escolhe homens e mulheres que continuam a sua missão hoje, como outrora chamou os apóstolos, que servem de modelo.

1 Cor 1,10-13.17: As comunidades recém evangelizadas por Paulo não estão maduras para viver todo ensino do evangelho. Devido à multiplicidade de culturas e classes sociais na cidade de Corinto (cidade portuária) a comunidade apresenta divisões. As diferentes concepções dos fiéis são causa de choques culturais. Uns se identificam mais com Cefas (judeus), outros preferem Apolo ou Paulo (gentios). O apóstolo, ouvindo a família de Cloé, exorta a que não haja divisões na comunidade, pois os apóstolos (Pedro, Apolo, Paulo) não são donos da Igreja. São apenas instrumentos nas mãos de Deus. Em 1Cor 1 está a chave para ler toda a carta, pois foi devido aos relatos da família de Cloé, que Paulo escreveu a carta.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno
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Segundo Domingo do Tempo Comum

Dia 15 de janeiro de 2023
Primeira Leitura: Is 49,3. 5-6
Segunda Leitura: 1Cor 1,1-3
Salmo: Sl 39,2.4ab.7-10
Evangelho: Jo 1,29-34

O Evangelho

O evangelho de João não narra a cena do batismo de Jesus. O evangelista parece supor que todos já conhecessem a história: ele se preocupa com a relação de João Batista com a sua missão, que é dar testemunho de Jesus ao povo.

João Batista já tinha dado um primeiro testemunho diante dos enviados pelas autoridades judaicas para saber se era ele o Messias (Jo 1,19-28). João Batista confessa que não é o Messias, mas alguém enviado para preparar o caminho do Messias. Mais do que humildade, João Batista demonstra fidelidade ao seu compromisso: ele não pode assumir uma autoridade que não lhe compete.

No texto de hoje, João continha o seu testemunho com duas novas revelações: Jesus é o Cordeiro de Deus e também o Filho de Deus. Por duas vezes, João Batista diz que não tinha maiores detalhes de sua tarefa, mas que a assumiu com fidelidade e disposição porque sabia que Deus lhe mostraria, em cada momento, o que deveria falar e fazer (vv. 31-33a).

Para falar de Jesus, João Batista usa uma frase enigmática: Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (v. 29). A expressão cordeiro de Deus não é fácil definir, porque, no Antigo Testamento, quem simbolicamente carregava o pecado da comunidade era um bode. Era um sacrifício expiatório: Deus não perdoava, mas castigava o bode no lugar da comunidade. Jesus não é um bode, é um cordeiro: ele carrega o pecado não simbolicamente, mas efetivamente, isto é, em Jesus, Deus perdoa.

Depois, João Batista fala como reconheceu Jesus: o Espírito, como pomba, identificou Jesus aos seus olhos (v. 32). A figura da pomba recorda os meios de comunicação de antigamente: pombo-correio. Ao usar esta figura, João Batista afirma que estava atento para captar a mensagem de Deus e sem preconceitos para acolhê-la.

A outra revelação feita por João é que Jesus é o Filho de Deus. João Batista não está dizendo que Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. O que ele quer dizer é que Jesus tem a mesma autoridade e o mesmo poder de Deus e, por isso, o batismo que Jesus veio trazer é superior ao que ele, João, praticava.

Por duas vezes, João Batista diz que Jesus é superior a ele: primeiro, ele diz que Jesus passou à sua frente, isto é, tornou-se mais importante do que ele; depois, João diz que o batismo de Jesus, com água e com Espírito, é superior ao que ele praticava, só com água. João Batista sabe qual é a sua missão e qual é o seu lugar: tudo o que ele faz só tem sentido e razão de ser se for para que as pessoas acolham a salvação que Jesus traz.

Deste modo, o evangelho de hoje apresenta João Batista como alguém que cumpre em tudo a ordem recebida de Deus, mesmo quando não a compreende nem sabe o que Deus pretende com ela. O evangelista João faz de João Batista um modelo que a comunidade deve seguir: um mensageiro dedicado e servo fiel.

Relacionando com as outras leituras

Também a primeira leitura fala de alguém, que por sua dedicação e fidelidade, se torna luz para as nações (Is 49,3-5-6). O profeta Isaías se dirige ao povo de Israel que foi deportado para a Babilônia. O que poderia ser visto só como um castigo, o profeta considera uma oportunidade para dar testemunho do amor e da fidelidade de Deus e, assim, anunciar a salvação até o extremo da terra. O povo de Israel tinha perdido uma guerra por causa de sua infidelidade. O profeta convida as pessoas a olhar além da crise e renovar a esperança: Deus se recordará de seu povo e o restaurará.

Tanto João Batista como o povo exilado na Babilônia são testemunhas de que a promessa de Deus se cumpre, por vezes de maneiras que não compreendemos. É exatamente por isso, que a ação de Deus sempre nos surpreende e desafia.

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Solenidade da Epifania do Senhor

Dia 08 de janeiro de 2023
Primeira Leitura: Is 60,1-6            
Segunda Leitura: Ef 3,2-3a. 5-6      
Salmo: Sl 71,1-2.7-8.10-13
Evangelho: Mt 2,1-12

O Evangelho

Os evangelhos de Mateus e Lucas começam com uma série de histórias referentes à infância de Jesus, desde antes de seu nascimento até a adolescência. A visita dos magos (Mt 2,1-12) é um relato exclusivo de Mateus.

O texto do evangelho que lemos hoje inicia com uma informação de lugar (Belém = Beth Lehem = casa do pão) e de tempo (no tempo do rei Herodes, que governou a Judeia entre 44 a 4 a.C.). Herodes era um representante romano, conhecido como hábil político e por suas crueldades. A semelhança de Mateus 2 com Ex 1,8–2,10 é gritante: o grande Herodes e toda Jerusalém temem o menino recém-nascido, tal como o faraó e todo o Egito, que temiam os recém-nascidos dos hebreus; Herodes trama a morte de crianças e repete a decisão assassina do Faraó.

Os magos do Oriente eram membros da classe sacerdotal persa, que servia ao soberano. Isso explica por que, ao chegarem à capital da Judeia, tenham se dirigido Herodes.

Propositalmente, o texto apresenta uma série de contrastes: o Rei Herodes e o rei dos judeus; a grande Jerusalém e a pequena aldeia de Belém; os magos vindos do Oriente e os sumos sacerdotes e escribas de Jerusalém; Herodes dizer querer prostra-se diante do menino, os magos efetivamente se prostram; os magos encontram o menino, Herodes não; os magos oferecem ao menino o que têm de mais precioso, Herodes oferece ao menino o que tem de pior; os tesouros dos magos são para a vida, o “presente” de Herodes é a morte. As autoridades de Jerusalém não perceberam o que os pagãos enxergaram: o nascimento do novo rei. Isso provoca uma ironia no texto: os pagãos vêm a Jerusalém anunciar o nascimento do messias salvador dos judeus.

Esses contrastes e ironias oferecem interessantes pontos de partida para uma reflexão sobre os nossos dias.

Vimos sua estrela no Oriente (v. 2): A estrela alude a Nm 24,17: “Surgirá uma estrela de Jacó e surgirá um cetro em Israel”. Um comentário-tradução judaico, chamado Targum Palestino, traduz assim este versículo: Surgirá um rei da casa de Jacó e um salvador para casa Israel. Por trás, está uma crença popular no mundo antigo, segundo a qual o surgimento de uma estrela é associado ao nascimento de um grande líder (político ou religioso): esta estrela iluminaria a criança por toda a vida; quanto mais poderosa uma pessoa, mais brilhante era sua estrela.

Em Mateus, a estrela não é apenas uma metáfora do Messias. Ela guia os magos e, assim, ela se torna sinal de Deus. A manifestação da estrela não é uma visão particular: ela está à vista de todos que querem enxergar no caso os pagãos. Então, a questão é: os habitantes de Jerusalém não viram a estrela, ou não quiseram ver?

Mas o curioso é que, quando os magos entram em Jerusalém, eles deixam de enxergar a estrela: ela só reaparece a eles quando saem do círculo do poder, quando abandonam seus velhos conceitos e as ideias seguras sobre onde está a verdade.

Os magos afirmam: “viemos nos prostrar diante dele”. O termo “prostrar-se” expressa, primeiramente, a fidelidade a Deus (Ex 20,5). Mas é também um termo politico: curvar-se ou prostrar-se é forma correta de cumprimentar um soberano (Mt 4,9-10). Os magos não se prostraram diante de Herodes, e sim diante de Jesus: isso indica qual rei eles reconhecem como legítimo.

O texto de Mateus também é rico em detalhes, e é necessário lê-lo em si mesmo, sem corrigi-lo com a versão de Lucas. No texto de Mateus, Jesus não nasce numa gruta nem está numa manjedoura, não há pastores nem anjos. Significa que o nascimento de Jesus ocorre numa pequena cidade, não no campo. E, mais ainda, que José e Maria estão em sua casa, isto é, não estão em viagem por causa de um recenseamento, como em Lucas.

Em Mateus, Jesus nasce numa casa e, aparentemente, está num berço. Nesta casa, os magos veem o menino e sua mãe. Só o menino e sua mãe. O texto não fala do pai. Este novo detalhe pinta a seguinte cena: o rei, em seu trono, com a rainha-mãe, à sua direita (cf. 1Rs 2,19). Em outras palavras, esses três elementos – a casa, o menino e a mãe – remetem ao cenário da monarquia, e os pagãos que chegam dizem explicitamente o objetivo de sua viagem: vieram “prostrar-se” diante do novo rei.

Relacionando com as outras leituras

Os dons que trazem não são presentes para um recém-nascido e, muito menos, presentes para a mãe em uma espécie de “chá de bebê”. O gesto de prostrar-se e o tipo de presentes – ouro, incenso e mirra, citados nesta exata ordem – têm a ver com o costume dos tempos antigos no Oriente: uma vez por ano ou, quando o novo rei assume o trono, os governantes dos povos dominados deveriam apresentar-se diante o soberano e prestar um juramento de submissão e fidelidade, bem como pagar tributos. Deste modo, cumpre-se a profecia da primeira leitura de hoje (Is 60,1-6) e do salmo responsorial (71,10-11).

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Is 60,1-6         Sl 71,1-2. 7-8. 10-13 Ef 3,2-3a. 5-6 Mt 2,1-12









Batismo do Senhor

BATISMO DO SENHOR – 9 de Janeiro de 2023
Evangelho: Mt 3,13-17
Primeira Leitura: At 10,34-38
Segunda  Leitura: Is 42,1-4.6-7
Salmo: Sl 29,1a.2.3ac-4.3b.9b-10 (R.11b)

O Evangelho

Este episódio da vida de Jesus aparece nos três evangelhos sinóticos. Mt toma por base o relato de Mc, transformando o relato do batismo numa revelação da messianidade de Jesus, porquanto a qualidade messiânica de Jesus já está revelada desde o momento de seu nascimento, da sua inserção na genealogia real que faz dele o “Filho de Davi”, e da sua concepção pelo Espírito Santo que faz dele o “Filho de Deus”.

O batismo da parte de João é o momento da manifestação de Jesus, ou podemos também dizer o primeiro emergir da sua autoconsciência messiânica. Depois da pregação messiânica do seu precursor, Jesus se revela no segredo da sua vocação; vem individuado como aquele “mais forte” que João havia reconhecido no círculo dos seus discípulos.

A perícope começa com a partícula toté: “então”, que funciona como ponte entre o batismo de Jesus e o texto anterior (3,1-13). Esta relação entre as duas perícope é marcada pelo uso da expressão verbal paragínetai que descreve tanto o “vir” de João quanto o “vir’ de Jesus (compare 3,1 e 3,13).

É extremamente significativo o fato de Mt deixar de afirmar que o batismo de João seja dotado do poder de remir os pecados.

Mc 1,4 e Lc 3,3 afirmam que João foi ao deserto “pregando um batismo de conversão para a remissão dos pecados”. Mateus não diz assim. Ele evita associar o batismo de João à “remissão dos pecados”. A razão está na vontade de Mateus de atribuir o poder de remir os pecados a Jesus somente e também ao caráter expiatório da sua morte. Nas palavras da instituição da eucaristia, Mateus é o único a transferir a cláusula que Mc e Lc atribuem ao batismo: “isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, derramado por muitos, para o perdão dos pecados” (26,28).

Mt introduz em seu relato: 1) um diálogo entre Jesus e João, no qual este aparece hesitante acerca da oportunidade do batismo de Jesus; 2) as palavras celestiais, depois do batismo, não são endereçadas a Jesus, mas transferidas à terceira pessoa e dirigidas aos presentes, aos que testemunham a cena.

O diálogo entre Jesus e João (v.13-15). Ao dizer que: “Jesus veio da Galileia ao rio Jordão até João, para ser batizado por ele”, o evangelista manifesta uma intenção. Não é ainda dito que Jesus se fez batizar. Na verdade João “se opunha”. Por que desejava impedi-lo? João sabe quem é Jesus. A razão do titubeio de João Batista é expressa candentemente: “Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?”. Aqui se invertem as partes e Jesus, que é o mais forte, se submete a João. Parafraseando: “Eu tenho necessidade do teu batismo de Espírito e fogo, e tu vens ao meu batismo de água?”.

Por que, então, Jesus se deixa batizar por João?

É uma escolha que faz parte do mistério da kénosis, da humilhação voluntária. Jesus, no evangelho segundo Mateus dá uma resposta insistindo aspecto obediencial: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça” (v.15). Sendo esta a primeira palavra de Jesus em Mt, ela adquire um caráter programático. Jesus e João, juntos, vão “cumprir” uma vontade divina que atualiza toda justiça. Expressão que equivale a “realizar”, “dar pleno cumprimento” à Lei e aos Profetas (5,17). O verbo cumprir (pleróo) é usado por Mt em dois sentidos: a) para realizar na vida de Jesus as profecias do AT (citações que se realizam); b) para radicalizar as exigências da Torá (discurso da montanha). O termo dikaiosyne: “justiça” indica o plano salvífico de Deus. Essa justiça superabundante (5,20) é a norma à qual Jesus se submete também no batismo.

O batismo de Jesus vem retratado em apenas dois versículos (3,16-17) que se compõe de quatro elementos: a saída da água; a abertura dos céus; a descida do Espírito de Deus; a voz celeste.

Batizado, Jesus subiu imediatamente da água”. O verbo “subir” (anabaíno) evoca, obviamente, um “descer” que o texto subentende: acontece uma imersão e uma emersão. O batismo possui um grande valor simbólico associado à morte-ressurreição. Mas a anábasis, a subida Jordão, recorda também a passagem do rio feita pelos filhos de Israel, sob a liderança de Josué. No batismo de Jesus temos vínculos com a morte-ressurreição e o ingresso pascal na terra prometida.

Os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba”. A abertura dos céus significa a possibilidade de uma visão do mundo divino, ou das coisas que devem ainda acontecer. No caso de Jesus, podemos conjecturar uma previsão a respeito dos acontecimentos aos quais estava sendo chamado. A analogia entre o Espírito e a pomba pode ser interpretada a partir do movimento de descida do alto que sugere, biblicamente, o “agitar das águas” pelo Espírito de Deus (Gn 1,2) no princípio da criação. Note-se que Mc menciona somente “Espírito”, e Lc “Espírito Santo”, enquanto Mt fala do “Espírito de Deus”. Agora, num certo sentido, o mesmo Espírito é ativo em vista de uma nova criação.

Relação com as Leituras

Uma voz vinda dos céus dizia”. Em Mt a voz celeste é dirigida aos expectadores da cena, na terceira pessoa: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo”. Transforma a revelação a Jesus em uma proclamação de fé eclesial. O conteúdo da voz é uma passagem da profecia do servo do Senhor em Is 42 que, no entanto, em Mateus, sofre uma reinterpretação em função do batismo de Jesus. “Filho” toma o lugar do “servo”, e “amado” substitui o “eleito”. As referências bíblicas aludem ao messianismo sofredor, prefigurando a missão de Jesus no mesmo horizonte do servo do Senhor. Os textos da festa do batismo de Jesus nos ensinam que o Filho-Messias não é um conquistador político, senão “o Servo” que prega o Reino dos céus e sofre a paixão. Na descida do Espírito do Senhor em At 10 se pode ver a doação do Espírito prometida a todos e todas indistintamente nos tempos messiânicos.

Maria Mãe de Deus

Dia 01 de janeiro de 2023
Primeira Leitura: Nm 6,22-27
Segunda Leitura: Gl 4,4-7
Salmo: Sl 66,2-3.5.6.8
Evangelho: Lc 2,16-21

O Evangelho

Hoje celebramos o primeiro dia do ano civil. Celebramos a esperança de que este novo ano seja mais saudável, com a proteção e a ternura de Maria, a Mãe de Deus.

No evangelho (Lc 2,16-21), temos uma breve cena dos episódios da infância de Jesus. Para compreendê-la, é necessário situá-la no conjunto desses relatos. É inevitável a comparação com o evangelho de Mateus. Em Mateus, quem visita Jesus menino e sua mãe são os magos (Mt 2,1); em Lucas, são os pastores (Lc 2,8). Além disso, Mateus diz que Maria e o menino estavam em uma casa (Mt 2,11); diferentemente, Lucas informa que Maria deu à luz a seu filho primogênito envolveu em faixas e acomodou num cocho (Lc 2,7). Este detalhe, que na narrativa lucana antecede o texto de hoje, não é de pouca importância. Aliás, deve ser lido com cuidado. Envolver em faixas está longe de ser um sinal de pobreza, mas sinal de acolhimento e proteção. Este gesto materno tão comum e natural demonstra que o Messias de Israel não é um rejeitado no meio do seu povo, mas alguém recebido e agasalhado adequadamente. Esta mesma imagem já tinha sido aplicada a Salomão, em Sb 7,4-5: o mais rico dos reis de Judá foi criado com cuidados entre cueiros; pois nenhum rei comece a vida de outra maneira. As faixas, portanto, ao mesmo tempo simbolizam humanidade e carinho.

Semelhante valor simbólico deve ser dado ao cocho, um repositório para a comida do gado. Ao narrar que Jesus foi acomodado em um cocho, Lucas sugere que, em Jesus, Deus alimenta e sustenta seu povo.

Lucas tem ainda o cuidado de informar ao leitor que Jesus nasceu na cidade de Davi, não em alojamento com os forasteiros. A frase não havia lugar para eles no albergue (Lc 2,7) não significa que a hospedaria estava lotada, nem que o hospedeiro se recusou a acolher uma mulher grávida. Diferentemente, significa que, no edifício em que se amontoavam viandantes e animais, não havia um local adequado para uma mulher dar à luz.

O texto desta liturgia começa descrevendo o que os pastores encontraram: Maria, José e o recém-nascido deitado no cocho (v. 16). Só então eles entenderam o que lhes tinha sido anunciado pelo anjo. Mas o texto diz que José não era o único com Maria e o menino: Todos os que os ouviram ficaram admirados com as coisas que lhes foram ditas pelos pastores (v.18) e, portanto, havia também outras pessoas, principalmente mulheres, que ajudaram Maria no trabalho de parto. Nada de estranho: o nascimento de Jesus foi um parto normal.

As palavras dos pastores provocam sentimentos variados: os que estavam lá para o parto, ficam admirados (v.18); Maria, por sua vez, guardava e meditava em seu coração (v.19). Ao longo da história, esta descrição dos sentimentos de Maria rendeu muitas páginas de textos espirituais com conselhos para as mulheres: Maria é modelo de silêncio; não é necessário entender, apenas meditar e aceitar. Embora sejam conselhos muito piedosos, estas e outras interpretações demonstram falta de compreensão do texto.

A frase guardar / meditar no coração descreve a atitude de outros personagens bíblicos; mais especificamente, Jacó (Gn 37,11) e Daniel (Dn 7,28). Os sábios não cansam de insistir que seus discípulos saibam mais ouvir do que falar (Pr 3,1; 15,23; Ecl 7,6; Sl 119,11). Essa atitude faz parte da busca de Maria pelos sentidos dos acontecimentos que cercam o nascimento de Jesus, ela antecipa o que o próprio Jesus dirá em Lc 11,28: mais felizes do que o ventre que o gerou e os seios que o amamentaram são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.

Trata-se, portanto, não de uma atitude de submissão, mas de sabedoria: a busca do entendimento não passa pela multiplicação de palavras nem pelo desejo de desvendar enigmas, e sim pela observância das palavras da Torá (Lei) e dos profetas. De fato, esta é a essência do Shemá: Escuta, Israel; guarda estas minhas palavras; medita-as em casa e pelo caminho… (Cf. Dt 6,4-8; ver também Dt 4,39-40; 7,17-21). Lucas faz de Maria a mulher que cumpre o Shemá e, por meio dela, estende o mandamento e sua realização a todas as mulheres.

Relacionando com as outras leituras

Na primeira leitura de hoje (Nm 6,22-27), temos a bênção de Moisés. São palavras de encorajamento e esperança, em primeiro lugar, para o povo na dureza do deserto, mas também para nós hoje, na dureza do deserto do medo e das incertezas. Deus nos abençoa e nos guarda para construirmos o Novo Ano com paz, respeito à vida do planeta e fidelidade aos mandamentos.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno
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ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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Sagrada Família

Dia 30 de Dezembro de 2023
Primeira Leitura: Sir (Eclo) 3,3-7.14-17a
Salmo: 128,1-2.3.4-5
Segunda Leitura: Cl 3,12-21
Evangelho: Mt 2,13-15.19-23

O Evangelho

O texto está teologicamente construído sobre o pano de fundo do Antigo Testamento. Um novo Êxodo inicia. Em Jesus as Escrituras se realizam (vv.15.17.23): A perseguição e a fuga para o Egito lembram o nascimento de Moisés (Ex 2,1ss). A matança dos meninos lembra Ex 1,15ss. Como nesta ocasião, diante da morte dos recém-nascidos, Moisés conseguiu ser salvo, também Jesus não é trucidado por Herodes. A fuga para o Egito e a volta também têm por base a fuga de Moisés diante da ameaça de faraó (Ex 2,14-15) e sua volta, depois da morte do mesmo (Ex 4,19ss). A volta do Egito lembra também Os 11,1 (Jesus é filho de Deus e ao mesmo tempo, personificação do povo de Deus). Há controvérsias sobre o v. 23, o nazireu/nazoreu. Para alguns biblistas, seria uma referência ao juiz Sansão, que em Jz 13,5-7 é chamado de nazireu, que significa separado, ou consagrado (cf. Nm 6,2), ou ainda ao rebento de Is 11,1 (nazir). Pode também ter algo a ver com a residência, agora, em Nazaré. Assim nazireu, talvez seja uma corruptela de nazareno.

A morte de Herodes, pelos estudos históricos atuais, é fixada para o ano 4 a.C. Isto aponta para o fato de Jesus supostamente ter nascido uns 6 ou 7 anos antes da data hoje celebrada. A figura de José liga o menino com a dinastia de Davi para se realizar a promessa de Deus à descendência deste rei (2Sm 7,11ss).

Jesus, Maria e José, como outrora a família de Jacó migrou para o Egito (Gn 46,1ss), também migram para esta terra. Ao retornar para Israel, a sagrada família lembra o retorno dos israelitas à Terra Prometida, depois da estadia no Egito (Js 2,1ss). Assim, o início da vida de Jesus é ilustrado com as cores do início do povo de Israel. O que no antigo povo foi pré-anunciado, vai se realizar plenamente na pessoa de Jesus. 

Jesus é visto como o novo Moisés que trará a nova lei e formará o novo povo de Deus (Mt 5-7). É também o descendente de Davi, o primeiro grande rei que unificou Israel. Assim Jesus é o novo Israel que refaz a história do antigo povo de Deus e a leva à plenitude. Jesus é a total novidade, mas plantada sobre a história do povo de Israel.

Levando em conta todos estes dados, deve-se afirmar: muito mais do que uma crônica histórica do nascimento de Jesus, que nos tempos de Mateus certamente não era conhecida, está aqui um tratado teológico, ou cristológico da novidade trazida por Jesus, desde sua origem. Como, outrora, o povo de Israel, perseguido, oprimido, com Deus fez o caminho de libertação, agora Jesus que irá formar o novo povo de Deus, passará por situações iguais, e no germe desta nova realidade tem o caminho da libertação da escravidão, do pecado e da morte. Pode-se então afirmar, o que se experimentou na história do povo de Israel de forma incipiente, desde a origem, vai se realizar com plenitude na pessoa de Jesus e do novo povo que ele formará: a Nova e Eterna Aliança. Ou seja, velho povo dará lugar ao novo povo (Mt 21,41-43). Segundo a cristologia de Mateus, este menino é o messias, pois nele se realizam plenamente as profecias do AT.

Relacionando com as outras leituras

Sir 3,3-7.14,17: Deus, ao se encarnar na história humana, realizando os desígnios já antevistos no AT, quis precisar de um homem e uma mulher. Tudo isto se realizou numa família. Nos planos de Deus, para as novas gerações, que devem, hoje e no futuro realizar o reino instaurado por Jesus, a família tem um papel fundamental. Como no passado, Deus quer contar com a participação de homens e mulheres (Adão e Eva, Abraão e Sara, etc. para realizar seus desígnios eternos, agora, na pessoa de Jesus, novamente um homem e uma mulher são escolhidos para levar a efeito os desígnios de Deus. A Sagrada Família, é por excelência, o lugar da realização do início da nova história. Por isto mesmo, na liturgia da Igreja, José e Maria, com Jesus, têm um papel de destaque. Se, por um lado, toda esta novidade se realiza na pessoa de Jesus, por outro lado, José e Maria, formam com ele a família onde ele pode realizar os desígnios do Pai. Esta família é o modelo da convivência amorosa ilustrada no Sirácide.

Cl 3,12-21: Também Paulo, a exemplo de Sir (1ªleitura), fala da boa convivência familiar (vv.18-20). Para isto ele recomenda revestir-se de uma veste especial feita de compaixão, benevolência, humildade, doçura, tolerância, perdão e, acima de tudo, de amor (vv. 12-14). A exemplo da Sagrada Família, os/as discípulos/as de Cristo, principalmente as famílias, devem se revestir destas virtudes. Para que isto seja possível, Paulo recomenda alguns meios: a Palavra de Cristo (evangelho), instrução mútua, oração (salmos, hinos e cânticos), fazer tudo em nome de Jesus (vv.16-17).

As famílias de hoje têm na Sagrada família um espelho: Deus humanado quis viver numa família. Para haurir dela a seiva para prosperar, encontram na primeira leitura e também na segunda, alguns critérios que não devem ser esquecidos. São virtudes que também, José, Maria e o Menino viveram.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

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Natal do Senhor

Natal do Senhor – 25 de dezembro
Evangelho: João 1,1-18
Primeira Leitura: Isaías 52,7-10
Segunda Leitura: Carta aos Hebreus 1,1-6
Salmo: Sl 97,1-7

O Evangelho

A perícope é escolhida para esta Solenidade por destacar o tema da encarnação, como ponto de partida da obra terrena do Logos preexistente.

A afirmação “e a Palavra (Logos) se fez carne e habitou entre nós” (1,14) está no centro da cristologia joanina. O predicado “Logos” é encontrado apenas no prólogo do evangelho e ainda é retomado na expressão “o Logos da vida” em 1 Jo 1,1. Logos não aparece mais no evangelho, fazendo quem lê pressupor a preexistência de Jesus em todos os relatos que virão na sequência. Funciona talvez como “indicação de leitura”. É uma fórmula que vai além de todos os predicados cristológicos: Filho, Filho da Humanidade, Profeta, Cordeiro de Deus, e desenvolve uma perspectiva única.

v.2: “estava com Deus”, tem-se a impressão de que o evangelista usa a construção prós com acusativo para indicar uma relação dinâmica entre o Logos e Deus, isto é, “Palavra” que “se dirige” a Deus.

No AT, aparecem entrelaçadas a Palavra, a Sabedoria de Deus e a Lei. A Palavra de Deus tem uma força criadora: “Pela Palavra do Senhor foram criados os céus, e pelo alento de sua boca todos os astros” (Sl 33,6). “Por tua palavra tudo fizeste” (Sb 9,1). Precisamente isto é dito do Logos joanino: “Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez” (Jo 1,3). Sem dúvida, este discurso é inspirado na história de criação de Gn 1, especialmente para a expressão “no princípio”.

Em relação a Deus, é atribuído ao Logos outros requisitos: ele estava perto Deus e ele era Deus.

Se, além disso, considerarmos os outros predicados: “Nela estava a vida e a vida era a luz dos seres humanos” (1,4), salta aos olhos a relação com a literatura sapiencial. Já no momento da criação, a Sabedoria personificada é retratada como arquiteta (Pr 8, 27-30), conselheira (Sb 4), artista (Sb 8,6), até criadora (Sb 7,12). A Sabedoria não é igualada a Deus, mas é vista como a força graças à qual Deus criou tudo.

Contra este pano de fundo sapiencial, o Logos torna-se o criador do universo, mas também a vida e a luz das pessoas (1,4). Em Sb 9, de Deus é dito não só que ele fez tudo pela sua Palavra, mas também que apetrechou os seres humanos de sua Sabedoria. Visto que a Sabedoria ensina todos os caminhos da virtude (Sb 8,7), está intimamente ligada à Lei divina.

O texto volta nossa atenção para o mundo humano, para o qual a Palavra de Deus é vida e luz, como Sabedoria que ilumina, vivifica e enche tudo de alegria, mas da qual as pessoas se afastaram incompreensivelmente. Finalmente, o evento que supera tudo é descrito: a encarnação do Logos, que armou sua tenda entre os seres humanos. Assim se abriu definitivamente a revelação de Deus e abriu-se o caminho da vida (1,18).

Com a afirmação: “E o Logos (a Palavra) se fez carne e habitou entre nós” (1,14), João vai além da ideia de um poder habitação espiritual pré-existente no mundo. A expressão “fez-se carne” não nos deixa dúvidas que João está pensando no homem Jesus Cristo, de carne e sangue, que apareceu entre a nós em determinado contexto histórico e nos revelou as fontes da Sabedoria de Deus. O termo sárks, “carne”, designa o elemento de fraqueza e caducidade humana. O Logos tornou-se perfeitamente solidário com o gênero humano.

Há um paradoxo na frase “e a Palavra se fez carne”. O texto apresenta o Logos na forma de um homem fraco e fugaz, que, no entanto, possui em si poderes salvadores. Fraqueza da carne e força do espírito estão paradoxalmente unidos. O Logos não encontrou acolhimento no mundo embora este tivesse sido criado por ele e fosse sua propriedade. Os seres humanos, a quem ele deveria trazer vida e luz, o recusaram.

O que se expressa aqui é uma mudança no modo de ser do Logos: antes ele estava “com Deus” (v.1), agora ele coloca sua tenda “entre nós” (v.14), na plena realidade da ‘carne”. O “tornar-se carne” da Palavra indica um ponto de virada e abre para os seres humanos a possibilidade de salvação.

A expressão cháris kaì alétheia: “graça e verdade”, corresponde ao hebraico hesed – ’aemet que expressa no AT o amor e a fidelidade de Deus a seu povo. A bênção desta presença divina é certamente experimentada (apenas?) pelos crentes, que alcançaram a plenitude da graça em virtude do testemunho daqueles que viram a glória do Encarnado (v.12-14b). O v. 13 destaca ainda mais o sentido da filiação divina: não é um nascer natural, mas nascer de Deus. A comunidade dos crentes professa a sua fé: “de sua plenitude todos nós recebemos graça por graça” (v.16), um dom em lugar de outro, a nova revelação em lugar da antiga.

Relação com as outras leituras

Do conjunto das Leituras, fica nítida a ideia de que o Verbo encarnado é o mediador, para os seres humanos, da existência da criação. Ele é o transmissor de tudo o que dá plenitude e sentido à sua existência particular: vida e luz. Os dois conceitos são intimamente relacionados entre si; mas, deles, o da ‘vida’ é o principal e a ‘luz’ o qualifica, colocando essa ‘vida’ sob um aspecto particular: a vida que estava no Logos significa, para a humanidade, luz.

O texto de Is é um cântico de júbilo que acolhe a boa notícia da chegada triunfante do Senhor. O centro da boa notícia é o anúncio do Reinado de Deus (v.7), ou seja, da manifestação do Senhor como salvador e consolador do seu povo.

Na Epístola aos Hebreus (v.3) encontramos o tema da igualdade da natureza do Pai e do Filho mediante a imagem da luz irradiada e da Palavra que “sustenta”, conserva existencialmente toda a criação.

4º Domingo do Advento

Dia 18 de Dezembro de 2022
Primeira Leitura: Is 7,10-14                      
Segunda Leitura: Rm 1,1-7
Salmo: 24,1-3,3-4,5-6 (R 7c,10b).
Evangelho: Mt 1,18-24.

O Evangelho

Esta narrativa da comunidade de Mateus reflete suas profundas raízes no judaísmo e na lei judaica. Neste contexto, uma mulher grávida antes de ter consumado o casamento com seu prometido era uma falta gravíssima. Mas, por que Deus escolhera descumprir a própria lei? Seria para deixar evidente que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo na Virgem Maria? É possível, mas o que fica marcado nesta narrativa é que a Lei, mesmo aquela revelada por Deus, não pode limitar a revelação de Deus. Lembremos que o Evangelho segundo Marcos, anterior a Mateus, nem sequer aborda as narrativas das origens de Jesus, e Lucas, posterior, que aborda estes assuntos, também não se preocupa com o fato de Maria conceber sem ter conhecido homem algum (Lc 1,34).

A narrativa em si

Introdução: A gênesis de Jesus Cristo (v. 18a) – Que já foi anunciada em 1,1 (Livro do Registro da Genealogia – nascimento – filho de Davi, filho de Abrão).

1. A situação legal: Maria, sua mãe estava prometida a José (v.18b).

2. O problema legal: Antes de morarem juntos ficou grávida do Espírito Santo (v.18c).

3. A solução mais justa segundo a lei: José planejou deixa-la em segredo (v.19).

4. A intervenção divina: Não tenhas medo de receber Maria, tua esposa, foi gerado do Espírito Santo (…) lhe darás o nome Jesus e salvará o povo de seus pecados (v.20-21).

5. O projeto de Deus além da Lei: Para que se cumprisse o que disse o profeta “Deus-conosco” ou “Emanuel” (v.22-23; cf. Is 7,14 e 8,8.10).

6. A superação da Lei: José fez como o anjo tinha mandado (v.24).

7. Conclusão da gênesis divina de Jesus: Ele não teve relações com ela até que deu a luz um filho a quem deu o nome Jesus (v.25).

Elementos estruturantes da narrativa

Jesus e Maria: O nome “Jesus” aparece três vezes na introdução, sendo também chamado “Cristo” e na conclusão, reafirmando que não é possível compreender o sentido da Encarnação de Deus em Cristo no estreito sentido da lei (v.18a e 25). Jesus é um nome divino, dado pelo anjo, reafirmando que é “Deus que salva” (sentido hebraico do nome). Maria, instrumento divino da salvação em Jesus, aparece duas vezes, mostrando que, embora condenada pela lei, foi acolhida por Deus (v.18b e 20b).

José: É nome que mais aparece. Ele representa os questionamentos das pessoas mais legalistas que poderiam duvidar de que a vontade divina fosse além da lei. Ele convida a superar todo preconceito e abraçar a salvação dos pecados através do acolhimento e da compaixão.

Deus-conosco (Emanuel) – O fato de dizer “que significa” (v.23b), mostra que as pessoas a quem estava dirigida a narrativa não eram de origem judaica e possivelmente também fossem questionadas por não se enquadrarem na lei. Assim este Deus-conosco, une o projeto salvador e libertador profético com o acolhimento universal de toda a humanidade em Jesus Cristo.

Relacionando com as outras leituras

Isaías histórico, um sacerdote de Jerusalém, profetisa em tempos de grande ameaça, junto a Miquéias, um camponês, e ambos entendem que a opressão, a injustiça e a violência, só poderão ser superadas quando Deus habite no meio do seu povo, isto é, “Emanuel” (Is 7,14;8.10). Já o apóstolo Paulo escreve para a comunidade de Roma sobre este Jesus que, embora seja filho de Davi segundo a carne (Rm 1,3), promove a “obediência da fé” segundo o Espírito (v.4-5), deixando, depois bem estabelecido que não é a mesma coisa que obediência da lei (cf. Rm 2,27-29). Em Jesus Cristo a lei se torna compaixão e a fé acolhimento.

3º Domingo do Advento

Dia 11 de dezembro
Evangelho: Mateus 11,2-11
Primeira Leitura: Isaías 35,1-6a.10
Segunda Leitura: Carta de São Tiago 5,7-1
Salmo: Sl 145,7.8-9a.9bc-10 (R. Cf. Is 35,4)

O Evangelho

O centro da mensagem do texto evangélico do 3º. Domingo do Advento é a exaltação de João e da sua missão, feita por Jesus; e o seu redimensionamento como figura preparatória do Reino dos Céus instaurado em Cristo.

Do ponto de vista narrativo, a pergunta de João vai expressar uma dúvida sobre Jesus ou será um expediente para que Jesus manifeste mais claramente a própria identidade?

Os ganchos com os capítulos precedentes são fortes: as “obras messiânicas” que põem João em alerta são aquelas exibidas nos cap. 8-9; e as “coisas que ouvem e veem”, na resposta de Jesus, se referem mais aos discursos evangélicos que aos milagres. Note-se que em Mt 3 João Batista havia dado testemunho de Jesus, agora Jesus testemunha a respeito de João. Do ponto de vista temático, Mt 11 é uma espécie de flashback. Jesus se situa em relação a João, e através dele fala de si mesmo. O elogio feito a João se torna ocasião para um primeiro balanço de sua atividade que, como aquela de João, sofreu forte oposição.

Sabemos que João Batista está preso (4,12). E que será martirizado (14,3ss). A situação na qual se encontra João é fundamental para compreender a sua pergunta. Ele ouviu falar das “obras do Messias”. Quais são estas obras? As mesmas narradas nos cap. 8-9, e agora resumidas por Jesus através de um elenco de citações de Isaías: “cegos veem”, “surdos ouvem”, “mancos caminham”, “mortos despertam”, “pobres são evangelizados” (Is 29,18; 35,5, vide 1ª. Leitura; 26,19; 61,1). Colocada no final, em posição deliberadamente estratégica, a obra messiânica por excelência é a evangelização dos pobres (Mt 5,3; 9,36). Mas aquele texto de Is prossegue dizendo: “Me enviou… para a libertação dos prisioneiros” (Is 61,1-2).

À pergunta bem precisa de João, Jesus não dá uma resposta tão precisa: deixa falar os fatos. Entre as obras messiânicas está restituir a liberdade aos cativos, e João Batista se encontra na prisão! Ouve falar de Jesus, no cárcere: suprema contradição. A pergunta de João é altamente dramática. Que Messias é esse que não o liberta da prisão? Ela é assim formulada: és tu aquele que devia vir, ou devemos esperar um outro? “aquele que deve vir” (literalmente: que vem, ho erchómenos), é um particípio já usado por João Batista em Mt 3,11 (“aquele que vem depois de mim”) e tudo colorido com um sentido messiânico (Mt 21,9; 23,39) “aquele que vem em nome do Senhor”. Ou será outro que deve vir? É necessário tomar essa pergunta em toda sua seriedade, gravidade e dramaticidade. Neste ponto do evangelho a pergunta exprime uma dúvida que é também do leitor: Jesus é verdadeiramente o Messias esperado? As suas obras são suficientes para creditá-lo como tal?

Na sua resposta aos discípulos de João, Jesus diz poucas coisas citando algumas passagens da Escritura. Aparece somente uma palavra não escriturística dita por Jesus, e é, talvez, a mais reveladora. A bem-aventurança para quem “não se escandalizar” por causa de Jesus. Sinal que dele podemos escandalizar (5,29). Jesus admite que apesar de tudo aquilo que se ouve e se vê dele, não é evidente que ele deva ser considerado o Messias. A dúvida de João tem razão de ser. A concepção terrena e triunfalista a respeito do Messias impedia aos judeus reconhecer Jesus como enviado definitivo do Reinado do Pai. Para aderir a Jesus como ao Messias existe um escândalo a superar, o escândalo de um Messias pobre e desarmado neste mundo.

Jesus alude a si mesmo falando de João que, na prisão, extinguiu sua missão, enquanto Jesus deve ainda levá-la a cumprimento: da dúvida de João sobre Jesus se passa a certeza de Jesus sobre João. Jesus testemunha que João antes de tudo não é um “caniço sacudido pelo vento”. Com uma série de três perguntas retóricas se dirige à multidão questionando “o que fostes ver no deserto?” Um frágil caniço? Não, João não era uma palhazinha agitada pelo vento. “Mas”, e se repete a mesma pergunta, “o que fostes ver?” o grego introduz cada repetição da pergunta com a conjunção adversativa allá, que pode significar “más” ou “se não”. Se não era por isso, o que fostes ver? João não era tampouco um “homem bem-vestido”, se vestia com peles de camelo (Mt 3,4), era um asceta, um homem forte e vigoroso. Então, de fato, o que procuram? “Um profeta?” Esta é a resposta boa, porém ainda insuficiente: “Sim, vos digo e mais (maior) do que um profeta”. João não é um simples profeta, é o precursor do Messias. Para provar isso, segue uma citação bíblica que faz uma sugestiva combinação entre um texto profético e com outro da Torah: “Eu vou enviar o meu mensageiro para que prepare um caminho diante de mim” (Ml 3,1). “Mandarei um anjo à tua frente, para  que te guarde pelo caminho e te introduza no lugar que eu preparei” (Ex 23,20). Destacam-se dois acentos: a preparação do caminho e a mudança dos pronomes pessoais em relação a Ml 3 “preparará o teu caminho diante de ti”. Tudo isso tem como efeito que o retorno de Elias, biblicamente destinado a preparar o “dia do Senhor”, foi relido como uma preparação à vinda do Messias. Assim, Jesus conecta a referência entre João Batista e Elias, à sua própria qualidade messiânica e à sua recíproca interdependência numa relação de mestre-discípulo. O testemunho prossegue declarando João como o “maior” (meízon) entre os nascidos de mulher. Quem é, pois, o “menor” (ho mikróterós) nominado logo depois (v.11)? “O menor”, tomado absolutamente, significa o mais jovem. Se João (cf. v.13) é considerado a última e mais importante manifestação do AT, no reino messiânico aparece como subordinado, pois, quem entrou na nova era da graça acha-se, em relação a ele, um grau acima. O precursor é maior, visto que veio preparar o advento do Reinado do Senhor. Mas quem fizer parte dele, ainda que seja o menor, tem maior dignidade, pois goza da luz de Cristo superior à de João. Estes versículos destacam a dimensão da ruptura e da novidade radical em relação à Lei e aos Profetas.

Relação com as Leituras

O texto do profeta Isaías é lido como profecia messiânica. A “vingança” divina não é tanto o castigo dos ímpios, quanto a salvação que o Senhor opera do povo e, em particular, dos últimos da sociedade.

A carta de Tiago relaciona-se com o Evangelho na medida em que aborda o tema da impaciência pela vinda do Senhor. Essa expectativa deve ser vivida como uma espera alegre e ativa, que corresponda à expectativa de Deus em relação a cada um de nós.