12º Domingo do Tempo Comum

Dia: 20 de junho de 2021
Primeira Leitura: Jó 38,1.8-11
Salmo: 106,23-24.25-26.28-29.30-31
Segunda Leitura: 2Cor 5,14-17
Evangelho: Mc 4,35-41

No início da perícope Marcos se preocupou em criar uma ligação com a cena anterior da grande pregação no lago. A barca com a qual Jesus atravessa o lago é a mesma que havia lhe havia servido de púlpito. As outras barcas presentes não serão mais mencionadas. A tarde que termina (escuridão que chega) funciona como pano de fundo eficaz ao relato.

O milagre da tempestade acalmada evoca a luta primordial de Deus contra o oceano, concebido no Antigo Testamento como aquele que devorava os seres humanos, submergindo-os no abismo. Somente Deus pôde domá-lo com a sua onipotência quando criou o mundo. Por isso a primeira leitura traz o discurso que o Senhor faz a Jó.

O relato apresenta numerosas afinidades com a história de Jonas e relaciona-se com salvações milagrosas proclamadas no Sl 106. Na descrição é recorrente o motivo do poder do Senhor sobre ondas, tempestades e sobre o mar, repetidamente descrito e celebrado no Antigo Testamento. Domina a ideia que Deus salva da angústia: “Na sua angústia invocaram o Senhor, e Ele salvou-os da aflição. Transformou o temporal em brisa suave, e as ondas do mar amainaram” (Sl 106,28).

Literariamente a perícope tem afinidades com o relato do primeiro exorcismo operado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum (1,21-28). Os elementos, vento e água, se rebelam. Jesus ordena que se acalmem e eles obedecem. Temos aqui um autêntico exorcismo sobre as forças “diabólicas” do vento e do mar.

O episódio assume um forte sentido cristológico: Jesus será submerso na tempestade da Paixão, a sua morte é aqui simbolizada pelo sono. A tempestade acalmada preludiava sua vitória sobre a morte. Cristo ressuscitado salva a humanidade das jornadas de abismo, doando a vida eterna.

Com a tempestade, descrita em detalhes, a barca é ameaçada de afundar. Em contraste com tudo isso, Jesus dorme na popa do barco. Seu sono é expressão da sua soberania e segurança. Contrariamente a Jesus, os discípulos estão excitados e o acordam com uma imprecação.

Além do acentuado caráter cristológico, percebe-se no relato uma intenção eclesiológica. A repreensão pela falta de fé dirigida por Jesus aos discípulos que estavam com ele na barca é endereçada pelo evangelista aos cristãos da sua comunidade desacorçoados no seu amor a Cristo. Note-se que a repreensão de Jesus no v.40: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?” soa como resposta à repreensão que os discípulos haviam dirigido a ele anteriormente (v. 38): “Mestre, não te importa que pereçamos?”

Com os vers. 39-41 chega-se à culminação do drama. Jesus não reage ainda à bronca dos discípulos, mas pronuncia a palavra milagrosa. Aqui a tempestade e o mar são interpelados como seres viventes e lhes é ordenado de acalmarem-se.

É importante observar que a autoridade atribuída no Antigo Testamento a Javé (a prerrogativa de aplacar as tempestades era exclusiva do Criador), é concedida a Jesus, o qual não faz acontecer o prodígio por meio de uma oração, mas pela plenitude do seu poder. Somente depois de haver completado o milagre Jesus se dirige aos discípulos. Lamentando-se pela sua pusilanimidade e incredulidade. Onde está, então, a verdadeira falha dos discípulos? O seu erro consiste em pensar somente em si e não estarem prontos a partilhar os perigos entre eles e Jesus. A situação se repetira na sua fuga da Cruz. No comportamento de Pedro em Mc 8, 32s se exprime o mesmo espírito.

Os discípulos descritos por Marcos tornam-se um exemplo de advertência para a comunidade não cair não mesma incredulidade.

A incredulidade inicia onde os cristãos, por pusilanimidade e medo, não estão disponíveis a assumir os perigos junto com Jesus e com as outras pessoas. Quem crê segue Jesus na obscuridade do sofrimento. Assim, pode também esperar em comunhão com a Igreja.

11º Domingo do Tempo Comum

Dia: 13 de junho de 2021
Primeira Leitura: Ez 17, 22-24
Salmo: 91, 2-3.13-14.15-16
Segunda Leitura: 2 Cor 5, 6-l0
Evangelho: Mc 4, 26-34

O Evangelho de hoje conta duas parábolas. A parábola, no mundo judaico, era a forma para ensinar o povo simples. Mas a parábola ao mesmo tempo que revela, esconde, porque é sempre uma comparação com imagens. Só entende a parábola quem conhece as imagens. Quem conta a parábola parte de uma realidade conhecida pelos ouvintes e os leva a tirar uma conclusão, por vezes julgando os fatos e os personagens da história contada.

As parábolas do evangelho deste domingo apresentam dois aspectos do Reino de Deus. Na primeira parábola, um aspecto individual (Mc 4,26-29); na segunda parábola, um aspecto comunitário (Mc 4,30-34). As duas parábolas de hoje falam do ambiente rural, pois a maior parte da população da Judeia nos tempos de Jesus morava e trabalhava no campo. Para compreendê-las melhor, é necessário ter algumas informações.

As duas parábolas falam de um solo fértil. Nos tempos de Jesus, os terrenos mais férteis e produtivos encontravam-se na Galileia. Aliás, é onde Jesus reúne uma multidão para ensinar em parábolas (Mc 4,1).  Mas já havia naquele tempo uma concentração de propriedades rurais, em modo semelhante ao que hoje chamamos de “latifúndios”. Em alguns casos, os donos viviam longe (na Judeia ou até mesmo em Roma) e quem trabalhava a terra eram os diaristas, que recebiam baixos salários: uma dacma grega ou um denário romano. Ambas as moedas tinham valor equivalente: cerca de 4 gramas de prata (menos de R$ 20,00!). Este dinheiro era suficiente apenas para alimentar quatro pessoas por um dia.

A primeira parábola (4,26-29) é exclusiva de Marcos, isto é, não é encontrada nos outros evangelhos. Nela, o Reino de Deus é como o homem “que joga a semente na terra”. Devemos notar: é como o agricultor, e não como a semente. Não obstante, o desenvolvimento do Reino é um mistério: não depende do agricultor, e sim da força da terra: “Quer ele durma, quer desperte, noite e dia, a semente germina e cresce” (v.27). Isso não significa que a parábola estimule a acomodação e a preguiça; ao contrário, convoca à esperança: a semente semeada produzirá frutos e haverá colheita, pois o Reino tem sua própria dinâmica e sua própria força, independente dos conhecimentos e da vontade de quem trabalha por ele.

Para os hebreus, desde a germinação até o amadurecimento das plantas, o sucesso da lavoura dependia de uma intervenção direta de Deus. A colheita, portanto, era um dom divino. Por meio desta parábola, Jesus expressa sua certeza de que o Reino de Deus chegará, porque é obra do próprio Deus. A ação de quem se compromete com o Reino não substitui a ação de Deus: o discípulo planta, rega, mas quem dá o crescimento é Deus (mesma imagem usada por Paulo, em 1Cor 3,6). Por outro lado, Deus também não dispensa a colaboração das mulheres e dos homens comprometidos com a transformação da história e da sociedade.

A primeira parábola termina com a afirmação de que, “quando o fruto está pronto, imediatamente passa‑se a foice, porque chegou a colheita” (v. 29). O símbolo da colheita tem grande significado na tradição bíblica: é o tempo da festa e da alegria, é o tempo em que Deus presenteia seu povo com os frutos (Is 9,2; 17,5-7).

A segunda parábola (vv. 30-32) não fala da semente em geral, mas fala especificamente do grão de mostarda. Também não fala do crescimento misterioso do Reino, mas do contraste entre a situação inicial e o resultado. O ponto de comparação não é o sabor da mostarda, mas a força escondida no grão. A interpretação usualmente feita refere-se à menor semente que se torna a maior das hortaliças. De fato, as plantas de mostarda encontradas ao redor do lago da Galileia são arbustos que podem chegar a três metros de altura. Mas talvez haja outra possibilidade de ler esta parábola.

O escritor romano Plínio, o velho, (23-79 d.C.) escreveu que a mostarda, com seu sabor extremamente picante, era uma planta silvestre que se propagava e fugia rapidamente do controle, principalmente nas terras férteis da Galileia. O grão minúsculo era levado pelos ventos e os pés de mostarda se multiplicavam a ponto de ocupar as terras em que não era desejada e impedir o crescimento de outras plantas.

A mostarda, portanto, tem ao menos três características – o sabor marcante, o crescimento acima do aparente e a expansão além do terreno semeado – que ajudam a compreender a força do Reino de Deus: embora a ação dos cristãos seja modesta e aparentemente inútil, o Reino se realizará com toda a sua grandeza. Para quem espera um reino que chega em modo triunfal e com cataclismos cósmicos, Jesus afirma que a ação de Deus já está acontecendo, no ministério humilde e pouco espetacular dos discípulos. Os vv. 33-34 são a conclusão do discurso parabólico do capítulo 4 do evangelho de Marcos. Devemos notar a diferença entre “multidão” e “discípulos”. A multidão é o povo em geral, que seguia Jesus e que, apesar de ouvir seus ensinamentos, não se comprometia com ele. Os discípulos são os que pertencem a um grupo mais próximo, que acompanha Jesus e recebe uma instrução mais aprofundada.  O texto não diz que Jesus fala o que o povo quer ouvir, nem o que o povo tem a capacidade de aceitar. Ao contrário, Jesus usa a linguagem que o povo entende até mesmo para repreender o povo. Mesmo assim, para a multidão, as parábolas permanecem um certo enigma, porque ao mesmo tempo em que revelam, escondem. Aos discípulos, porém, Jesus reserva um ensinamento mais explícito: desde o início, ele os prepara para a missão.

10 Domingo do Tempo Comum

Dia: 06 de Junho de 2021
Primeira Leitura: Gn 3,9-15
Salmo: 129 (130), 1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R. 7)
Segunda Leitura: 2Cor 4,13-5,1
Evangelho: Mc 3,20-35

Evangelho

O texto, como também o relato da filha de Jairo (Mc 5,21-43), vem na forma de sanduíche. Começa com o confronto com parentes (20-21), intercala o conflito com os escribas (22-30) e volta a falar dos parentes (31-35).

Para a compreensão do texto convém começar com a contraposição dos de dentro da casa que ouvem Jesus (v.20) e os de fora (v.31ss) que não ouvem. Os de dentro compreendem, os de fora, não (Mc 4,11). O povo simples entra na casa, como já o fizera em Mc 2,1ss para ouvi-lo, mas os consanguíneos ficam de fora e o julgam sem juízo. A lógica do Reino não é compreendida pelos laços familiares, mas por aqueles que acolhem Jesus e fazem a vontade do Pai que ele revela.

A nova família difere da velha. Na primeira importa a descendência de Abraão: laços sanguíneos. Na segunda, o que importa é aproximar-se de Jesus e fazer a vontade de Deus. Os da nova família, entram dentro da casa e se aglomeram para ouvir sem os critérios da oficialidade religiosa. Estão ávidos de assimilar a Boa Nova. Os da velha família de sangue, ficam fora, distantes, pois julgam a prática de Jesus como loucura. Qualquer semelhança com os irmãos da parábola do filho pródigo (Lc 15,11ss) não é mera coincidência. O filho mais velho, o que pratica a Lei, tem dificuldades diante da Boa Nova de Jesus que revela um Deus diferente daquele da religião oficial. Diante desta realidade, formam-se outras relações: nova família. Nesta não se entra por descendência, mas tão somente pela acolhida de Jesus e de seu evangelho.

O conflito com os escribas (22-30) é mais uma vez o conflito com a oficialidade religiosa. Para eles, a Boa Nova (Mc 1,1) destinada aos pobres e excluídos (cf. Lc 4,18-19) é um escândalo, por isto, atribuem-na a Beelzebu (Beel é uma variante de Baal, deus cananeu). Quando a Boa Nova da libertação dos sofredores é encarada como obra do diabo, então a pessoa que assim procede, cortou o canal de graça que vem de Deus por seu Filho que age no Espírito Santo (Mc 1,10). Isto é um pecado contra a ação do Espírito Santo que se manifesta em Jesus. Pecado este, que não tem perdão. Isto não significa que, quem uma vez assim pecou está irremediavelmente condenado ao inferno. O que o texto quer dizer é que todos os pecados que se cometa, podem ser vistos como lapsos, fraquezas e por isto mesmo, passíveis de perdão. Quem, porém, se fechar contra a Boa Nova de Jesus e atribuir isto ao demônio, a não ser que mude, rompeu com a graça, isto a lógica do Reino. Esta pessoa se auto exclui, e assim não chega ao perdão. Note-se que, neste caso não é Deus que condena, é a pessoa que se fecha ao amor de Deus.

Na resposta que Jesus dá aos escribas sobre entrar na casa do homem forte, amarrá-lo e saquear seus bens (v.27) está o ensino de que Jesus entra na posse do diabo (homem forte) e como mais forte do que ele, amarra-o e o vence (cf. Is 49,24s), como também o dirá em Jo 12,31 e 16,11, quando o príncipe deste mundo será derrotado: “eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Ou seja, Jesus, na cruz, destruiu o que o demônio havia amealhado.

A Boa Nova de Jesus (Mc 1,1) é incompreendida, tanto pela parentela que quer detê-lo – nota apenas trazida por Marcos – como pelos escribas que, mais do que incompreendê-lo, atribuem sua ação ao demônio.

Reação com as demais leituras Não entrar na lógica de Deus já foi um problema nas origens. Adão e Eva queriam prescindir de Deus, como os escribas queriam prescindir da Boa Nova de Deus revelado por Jesus. Isto leva à ruína (primeira leitura). A nova lógica de Jesus também se reflete na reflexão de Paulo quando contrapõem o homem exterior ao interior e nele vê a realização das esperanças cristãs.

Festa da Santíssima Trindade

Dia: 30 de Maio de 2021
Domingo da Santíssima Trindade
Evangelho: Mt 28, 16-20
Primeira Leitura: Dt 4,32-34.39-40
Segunda Leitura: Rm 8, 14-17
Salmo: Sl 32, 4-5.6.9.18.19.20.22

Evangelho

O Evangelho deste Domingo da Santíssima Trindade, segundo Gillermo Hendriksen (El Evangelio según San Mateo) recebe três nomes diferentes: “a grande declaração”, “o grande mandato” ou “a grande consolação”. Na verdade este autor capta bem esse tríplice sentido com que culmina o Evangelho de uma igreja perseguida e abatida pela violência que parece não ter fim. Uma “declaração”, porque anuncia o “poder/autoridade” (exousia) que lhe é dado no céu e na terra (26.18). Um “mandato”, porque tem o “ide/vai” (poreutentes) e “discipulai/fazei discípulos/as” (mateteusate) em 26.19. E uma “consolação”: “estarei com vocês todos os dias até o fim do tempo” (eon).

Podemos dizer que o final do Evangelho segundo a comunidade de Mateus é um abraço trinitário que empodera, envia e anima. Por outro lado, a formulação única da Trindade neste texto – único em que aparece a fórmula “do Pai e do Filho e do Espírito Santo” – chama a atenção e gera questionamentos: como será que esta comunidade chegou a esta fórmula trinitária tão clara e vinculada ao batismo? Certamente, foi fruto deste abraço particular com que Jesus reencontra seus discípulos onde tudo começou: na Galileia.

Não esquecer o ponto de partida (26,16)

O texto faz questão de criar um contexto. Enfim, a declaração, o mandato e a consolação poderiam ter sido ditas em qualquer lugar, até mesmo em Jerusalém. Mas, a Jerusalém que esta comunidade lembra está destruída e banhada em sangue (inclusive de pessoas das comunidades cristãs). No versículo 16, diz que “quando os discípulos foram para Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha ordenado”. Jesus é que “ordena” (etassato) buscar o ponto de partida – princípio depois adotado por Santa Clara de Assis – e a uma montanha onde tudo pode se ver e compreender em amplitude e profundidade (assim como no sermão em Mt 5-7 ou na transfiguração Mt 17.1-9, lugar que é mais lembrado neste Evangelho do que em qualquer outro).

Viver a adoração e superar a dúvida (26,17)

A atitude de “adorar” (proskineo) também é mais usada neste Evangelho do que em qualquer outro. Os primeiro a adorá-lo foram os Sábios de Oriente (Mt 2,2.8.11). Jesus lembra do mandamento de “adorar somente ao Senhor teu Deus” para vencer Satanás (Mt 4.10), às pessoas lhe adoraram pedindo cura para si ou para outras pessoas (Mt 8,2;9,18;15,25), e também os próprios discípulos e discípulas reconhecendo sua divindade e ressurreição (Mt 14,33;20,20, 28,9). Mas, tem aquelas pessoas que ainda duvidavam (edistaxan), uma palavra que aparece somente neste Evangelho e apenas duas vezes, aqui e quando Pedro afundava na água por duvidar (14,31). Esta comunidade tinha fé (adorava), mas isso não apagava a dor, a dúvida, a incerteza, que precisava ser empoderada, enviada para a missão e animada pela presença permanente de Jesus.

O abraço trinitário do discipulado e do batismo (26,18-20)

A revelação da Trindade emerge do abraço amoroso do Senhor Crucificado/Ressuscitado. Desde a montanha onde tudo começou, onde Jesus abraça esta comunidade fragilizada pela dor, cheia de fé e dúvidas, se dá ordem da caminhada final, até o fim deste tempo de violência e injustiça, de desamor e abandono. Por isso Jesus “chega perto”, se “aproxima”, “senta junto”, todos significados da expressão proselton, em grego. Então lhes declara que eles têm, em seu nome, “todo o poder” (contra o qual poder algum poderá, nem mesmo estes que agora causam tanto sofrimento. v. 18), lhes envia a dar esse mesmo abraço parental, fraternal e empoderador. Abraço que se partilha discipulando e batizando, sem exclusão (a todas as nações) e, consolando, pois não acaba enquanto este tempo (eon) carente amor, justiça e paz, durar (v.20).

Relacionando com os outros textos A Santíssima Trindade é Deus que abraça, da mesma forma que desde a criação abraçou amorosamente a humanidade e depois abraçou o povo oprimido e sem terra, dando um rumo e um sentido para sua caminhada (Dt 4.32-34.39-40). Abraço trinitário que se revela através do Espírito de adoção e não de escravidão que o apóstolo Paulo apresenta para a comunidade de Roma (Rm 8,15-16).

Festa de Pentecostes

Dia: 23 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 2,1-11
Salmo: 103, 1ab e 24ac.29bc-30.31.34
Segunda Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

O texto do Evangelho de João se compõe de duas partes: reconhecimento de Jesus (vers. 19-20) e mandato missionário aos discípulos com a efusão do Espírito (vers. 21-22). Os dois momentos são articulados através da saudação: “a paz esteja convosco”.

Jesus havia aparecido a Maria Madalena junto ao sepulcro no domingo da ressurreição pela manhã. À tarde comparece, de repente, em um local onde as portas estão fechadas. As portas fechadas são um dado importante para percebermos a concepção que o evangelista quer transmitir de como o corpo de Jesus se transformou a ponto de passar através de portas fechadas. No entanto, mantém a imanência das marcas da crucifixão nas mãos e no flanco.

Jesus aparece aos discípulos para inaugurar o tempo escatológico, marcado pelo dom do Espírito. Ao medo dos discípulos, refugiados num espaço fechado, se contrapõe a liberdade do Ressuscitado que entra de supetão ignorando as portas fechadas.

A expressão “a paz esteja convosco”, repetida duas vezes não é uma simples saudação: expressa a concessão do dom messiânico por excelência, a paz.

Jesus retornou a seus discípulos pouco depois de sua partida, como havia prometido durante a última ceia (16,16-22), mas não no mesmo estado precedente de caducidade terrena, mas com o corpo transfigurado. A paz e a alegria representam os dons preditos pelos profetas para o tempo messiânico. Bastou que Jesus se fizesse reconhecer, mostrando as feridas nas mãos e o flanco perfurado, para os discípulos ficarem “cheios de alegria”. Curioso o fato de não se mencionarem os pés (como em Lc 24,40, em que, no entanto, não se menciona o flanco, em virtude de só em João o flanco de Jesus ser trespassado pela lança do soldado).

Jesus confere aos discípulos o encargo missionário: “Como o Pai me enviou, eu envio a vós” (v.21). Jo estabelece um paralelo entre a missão que Jesus havia recebido do Pai e o mandato que ele agora ele confia aos apóstolos. O advérbio kathōs, “como”, não indica somente semelhança, mas também fundamento. Os discípulos devem continuar a missão confiada pelo Pai a Jesus, tendo ele como modelo e buscando dele a força para seu ministério.

A santificação dos discípulos advém mediante a palavra reveladora de Jesus e a ação do Espírito Santo. Por isso a necessidade da efusão do Espírito como princípio da vida nova e como animador e auxílio indispensável para a missão.

A simetria da expressão ao início dos vers. 20 e 22 (“e dizendo isso”) assinala o nexo estreito entre a ostensão do flanco perfurado e o dom do Espírito Santo: a sua ação é inseparável daquela de Cristo. A efusão do Espírito Santo antecipada simbolicamente pela saída do sangue e água do costado de Cristo representa o ponto culminante da missão de Jesus. O sopro de Jesus sobre os discípulos se conecta ao testemunho inicial de João Batista no Jordão, quando o proclamou: “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ e o apresentou como “Aquele que batiza com o Espírito Santo” (1,29.33).

O verbo “soprou” (enephýsēsen = insuflou) evoca a obra da criação, quando Deus plasmou o ser humano com o barro e soprou (enephýsēsen) em suas narinas um hálito de vida, tornando-o um ser vivente (Gn 2,7; Sl 103,29-30; cf. Sb 15,11; Ez 37,9). O gesto em Jo 20,22 significa que Jesus suscita nos discípulos uma vida nova no Espírito Santo. As palavras do Ressuscitado tornam explícito o que fora insinuado na cena do Calvário: o Espírito provém do corpo traspassado e glorificado do Senhor, como seu dom à humanidade. Ele será comunicado plenamente, porém, só em Pentecostes (At 2,1-11).

A perícope se conclui relacionando o dom do Espírito Santo com a remissão dos pecados. Em Jo o poder de “reter” ou “perdoar” os pecados tem como objetivo a reconciliação e o retorno dos pecadores a Deus.

Festa da Ascensão

Domingo da Ascenção do Senhor
Dia: 16 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 1,1-11
Salmo: 46,2-3.6-9
Segunda Leitura: Ef 1,17-23
Evangelho: Mc 16,15-20

Evangelho: Marcos 16,15-20

O relato da ascensão em Marcos faz parte da aparição de Jesus aos Onze, o grupo ao qual Jesus confia a responsabilidade da missão. Onze pessoas não poderiam “ir ao mundo todo”. Assim, a manifestação aos Onze é um relato simbólico da entrega da missão a todas as discípulas/os.

Pregação e batismo vv. 15-16: Jesus não diz explicitamente “batizai”, mas o v. 16 deixa claro que o batizar faz parte da missão dos discípulos. Por outro lado, a combinação “fé + batismo = salvação”, e o contrário “não-fé = não-salvação” lembra o diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3) e vários trechos de Paulo. O que temos, então, é um reflexo da pregação e da prática do início da Igreja.

Os sinais que acompanharão os fiéis vv. 17-18:São cinco sinais e, exceto a resistência ao veneno, todos são atestados na história e na vida da comunidade primitiva. São sinais que acompanharão os fiéis em geral, e não apenas os Onze. Tais sinais confirmam a palavra anunciada. Confirmação que acontece em quem acolhe, e não apenas em quem anuncia. Apenas um comentário: “falar línguas novas” não significa o “falar em línguas inexprimíveis”. É a afirmação de que os discípulos, para levar o evangelho a toda criatura, deverão aprender a língua dos ouvintes….

Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus v. 19: Os discípulos podem ter visto Jesus subindo, mas… sentar-se à direita de Deus? Esta é mais profissão de fé do que algo realmente visto. Ressurreição, ascensão/assunção e instalação à direita do Pai são artigos da fé da Igreja. Quem ofereceu o instrumental para crer nisso foi a literatura apocalíptica: Jesus venceu a morte, foi elevado acima dos poderes humanos e cósmicos, e agora é juiz do cosmo e da história.

Jesus, o Senhor, acompanhava os discípulos v. 20: Parece haver uma contradição: Jesus está nos céus, sentado à direita do Pai, mas ao mesmo tempo acompanha os discípulos na terra. Note-se que não é o Espírito quem acompanha os pregadores, mas o próprio Senhor! Esta “bi locação” de Jesus à direita do Pai e, ao mesmo tempo, junto aos discípulos exprime um ponto forte na fé da Igreja: o fato de Jesus estar no céu, à direita do Pai, permite que ele esteja também com todos os anunciadores do evangelho, algo que seria impossível se ele tivesse permanecido fisicamente na terra. O poder com que operam os anunciadores do evangelho provém, por meio de Jesus, do próprio Deus.

Em outras palavras, a Ascensão não é só o remate necessário para a história terrena de Jesus, mas também o complemento necessário para o milagre da Páscoa: o Homem-Deus, já vitorioso sobre a morte, começa a exercer seu poder de justiça e de paz, e oferece a todos a mensagem da salvação, por meio da pregação das/os discípulas/os.

Primeira Leitura: At 1,1-11

A primeira leitura deste domingo pode ser dividida em duas partes: o endereçamento do livro (vv. 1-2) e a narrativa propriamente dita (vv. 3-11). De fato, no v. 2, em apenas uma linha, Lucas faz um resumo de todo o evangelho. Mas é necessário notar também que, no v. 4, as palavras do narrador, de repente, se transformam nas palavras de Jesus: mandou “que esperassem ‘a promessa do Pai, a qual de mim ouvistes’”. Trata-se de um recurso literário pelo qual o narrador elimina a distância entre o leitor e os acontecimentos que vai narrar.

No v. 5, a distinção “batismo com água x batismo no Espírito Santo” marca a diferença entre o batismo de João e o batismo da comunidade cristã. No entanto, a comunidade cristã continua batizando com água. Sem água não se batiza! Qual a diferença?

A frase “batismo no Espírito Santo” indica que as profecias foram cumpridas, enquanto “batismo com água” é expressão para falar que essas mesmas profecias estão prestes a se realizar. Em outras palavras, “batismo com água” = preparação para o cumprimento das promessas; “batismo no Espírito Santo” = cumprimento efetivo das promessas.

É por isso que os discípulos se confundem e não entendem nada! Jesus fala de uma coisa, os discípulos perguntam por outra. Jesus fala da promessa do reino escatológico; os discípulos perguntam se é naquele exato momento que se cumprirá a promessa de que Israel voltará a ser um reino poderoso, um império (v. 6).

A resposta de Jesus parece mal-educada: “não é da conta de vocês quando será tempo cronológico exato (chrónos) nem o momento oportuno (kairós)…” (v. 7). Em outras palavras: “vocês têm algo mais importante pra fazer do que se preocuparem com isso!” E o que é mais importante? É o testemunho sobre Jesus. Por isso, o v. 8 já emenda a promessa do Espírito Santo, que dará as condições necessárias para isso.

Enfim, a cena específica da Ascensão. Note-se como o acontecimento é descrito: Jesus FOI ELEVADO, uma nuvem O ENCOBRIU (o levou), ele FOI ASSUNTO (vv. 9.11). É necessário lembrar que o mesmo acontece a respeito da ressurreição: é dito que “o Pai ressuscitou Jesus”, isto é, Jesus foi ressuscitado, e não ressuscitou por si mesmo! Convém repetir: trata-se da primeira compreensão da comunidade cristã. Só num segundo momento (mas que não vai demorar muito) é que se passa a enfatizar a ação própria de Jesus: ele ressuscitou (e não “foi ressuscitado”) dos mortos e subiu (e não “foi elevado”) aos céus.

No livro dos Atos, a Ascensão/Assunção de Jesus é descrita em tons apocalípticos: uma nuvem encobre Jesus e aparecem dois homens vestidos de branco.

A nuvem é o típico elemento das manifestações de Deus. Mas é também, na apocalíptica, o veículo do Filho do Homem (cf. Dn 7,13). Paulo acredita que, no dia da parusia, Jesus VOLTARÁ e, com ele, todos os mortos ressuscitados e os vivos irão surfando sobre uma nuvem sabe-se lá para onde (1Ts 4,16-17)!

Os homens de branco são os anjos que sempre aparecem em visões apocalípticas para explicar o sentido dos acontecimentos. Normalmente, quem tem a visão não entende nada e um mensageiro divino precisa explicar tudo. Mas os homens-anjos não explicam nada, e sim fazem uma pergunta e uma promessa: “Por que vocês ficam olhando o céu? Ele voltará da mesma maneira como partiu!”  Em outras palavras, a ascensão-sumiço de alguém provoca a esperança de que tal personagem voltará. As palavras dos homens-anjos garantem que tal esperança será realizada. Mas, Jesus voltará sobre as nuvens? A apocalíptica diz que sim! No entanto, o importante é o contraste: “não fiquem aí olhando para o alto e babando… voltem o olhar para a terra, porque é a hora da missão…”

VI Domingo do Tempo Pascal

Dia: 09 de Maio, de 2021
Primeira Leitura: At 10,25-26.34-35
Salmo: 97,1.2-3ab.3cd-4
Segunda Leitura: 1Jo 4,710
Evangelho: Jo 15, 9-17

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do discurso de despedida de Jesus (Jo 13-17) e, portanto, tem valor de testamento. Alguns biblistas creem que estes capítulos receberam influência das celebrações eucarísticas narradas nos evangelhos sinóticos (Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,15-20), onde se renova a Aliança. Ora, a Antiga Aliança era a observância das leis. Jo 15,9-17 ilustra esta observância a partir na perspectiva de Jesus, onde há apenas uma lei: o amor.

A presente perícope é o desdobramento da alegoria da videira verdadeira (Jo 15,1-8). A palavra chave que perpassa a perícope, pode ser definida como “permanecer”: no amor de Jesus, no amor do Pai e no amor da comunidade. O amor, síntese de toda Lei, é o elo  deste “permanecer”. Assim sendo:

  1. Vv 9-10 – o amor entre o Pai e o Filho se expressa na comunidade através dos discípulos que amam. O amor do Pai no Filho produz a comunidade, portanto, nela se faz a experiência do amor de Deus através de Jesus, que é a imagem (Cl 1,15) e o resplendor do Pai (Hb 1,3). Este amor requer da comunidade, frutos. O membro da comunidade que não se deixa atingir pelo amor do Pai no Filho, se exclui a si mesmo como o ramo decepado que não recebe a seiva do tronco;
  2. V 11 – O amor traduzido em compromisso, gera a felicidade, tema muito presente no evangelho de João (Jo 3,29; 14,28) e chega à culminância durante a experiência da ressurreição, quando os amedrontados discípulos se enchem de alegria (Jo 20,20);
  3. Vv. 12-13 – Já no AT existe o mandamento do amor (Lv 19,18). Porém, aqui se substituiu “o amar como a si mesmo” por “amar como eu vos amei”. Este preceito remete à experiência da cruz.  Amor que levou Jesus a assumir a doação total deve ser a máxima para os seguidores. A cruz é a marca maior do amor de Jesus: doar a vida pelos amigos;
  4. Vv.14-17 – O amor de Cristo vivido na comunidade muda as relações de servos em amigos, isto é, comunidade sem distinção com comunhão total. Amigos diferem de servos nas relações. Esta novidade é iniciativa de Jesus, pois foi ele que escolheu os amigos. A estes cabe responder na gratuidade, dando frutos que são a consequência do amor.

Na concepção do AT, havia 623 leis com comentários explicativos que tornavam a prática religiosa um peso insuportável (Mt 11,28) que nem Pedro conseguiu suportar (Gl 2,14). Observando todas estas leis, o fiel estaria cumprindo com fidelidade a vontade de Deus. Jesus, em Mc 12,29-31 resume todas estas leis em dois mandamentos: amor a Deus e amor ao próximo. Já no quarto evangelho ele reduz tudo a um único mandamento: o amor ao próximo, como também em se lê em Gl 5,15. João, porém, acrescenta “como eu vos amei”. Portanto, na nova aliança, não é preciso conhecer 613 leis, nem seus comentários detalhados. Basta apenas permanecer no amor de Jesus, pois assim, sintoniza com o Pai e se produz frutos na comunidade e se cumpre tudo o que a velha Lei nunca conseguiu.

No amor do discípulo, manifesta-se o amor de Deus revelado em seu Filho na doação da vida e aí os frutos serão a lógica do caminho da cruz. Como o ramo produz frutos ao receber a seiva do tronco (Jesus), cultivado pelo agricultor (Pai), a pessoa de fé produz frutos oriundos do amor de Jesus que tem sua origem no amor do Pai. Aqui as boas obras não são méritos humanos para agradar a Deus, mas antes, são as consequências de quem mergulhou no amor de Deus que perpassa toda a vida da comunidade.

Relação com as outras leituras O amor de Deus manifestado em Jesus (1Jo 4,10) chega a todas as pessoas indistintamente, o que não era assim entendido pelos primeiros discípulos de origem judaica, pois achavam que a salvação era só para os circuncisos. Ora, se este amor gratuito chega a todos, Pedro (At 10,25-26.34-35) é o primeiro a fazer a passagem de uma visão exclusivista e racial para uma nova realidade: o pagão Cornélio, um oficial romano, é admitido na comunidade. É o amor de Deus revelado em Jesus que produz frutos entre os discípulos que agora acolhem a todos.

Quarto Domingo do Tempo Pascal

Dia: 25 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,8-12
Salmo: 117,1 e 8-9.21-23.26.28cd.29
Segunda Leitura: 1Jo 3, 1-2
Evangelho: Jo 10, 11-18

O Evangelho

No contexto jubiloso da festa das Tendas, o evangelista sublinha a messianidade e a identidade sobrenatural de Jesus. Na seção 7,1–10,21 há um progresso na revelação do mistério de Cristo, concomitante ao agravamento da hostilidade contra ele da parte das autoridades judaicas. As articulações mais significativas são três: o debate no templo (7,1–8,59); a cura do cego de nascença (9,1-41); o discurso de Jesus sobre o bom pastor (10,1-18).

Os chefes dos sacerdotes haviam expulso o cego curado (9,34), mas ele é acolhido por Jesus (9,35-38), o bom pastor que ama e guia com solicitude. A imagem do verdadeiro pastor, que ocorre frequentemente nas Escrituras (Ez 34; Jr 23,1-6; Zc 11,4-17), é referida a Jesus também nos sinóticos (Mc 6,34; Mt 9,36; 10,6; 15,24; 26,31). Note-se a sugestiva parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7). João reelabora de modo original esse tema da pregação de Jesus.

Nos vers. 11-13 vêm ilustrada a imagem do pastor. Jesus se identifica duas vezes com o bom pastor (vers. 11.14) em contraposição à figura do mercenário. O adjetivo grego é kalós (literalmente “belo” = “ideal”, “bom”, “generoso”), que, significando secundariamente “bom”, tem como sentido primário “belo”. Jesus é o “belo pastor” à maneira de Davi, como se lê em 1Sm 16,11-12. Nesse episódio do Antigo Testamento, Samuel pergunta a Jessé pelo filho ausente. Jessé responde: “está apascentando as ovelhas”. Samuel ordena que Davi seja chamado. “Jessé mandou então buscá-lo. Davi era de belo semblante e admirável presença”.

O bom pastor, “se despoja (tithēsin) de sua vida pelas suas ovelhas”, ao invés de “dar a vida”. A terminologia também é usada para as vestes de Jesus na Ceia com os discípulos (13,4). O termo acentua, de modo particular, a liberdade e a voluntariedade e, ao mesmo tempo, o amor e a generosidade. A expressão “despoja” (tithēsin), revela a consciência e a liberdade com as quais Jesus “se despoja” da própria vida como uma veste (13,4.12) para depois retomá-la na ressurreição. Ele expõe a sua vida pelas (hyper, em favor) suas ovelhas. Em oposição, o comportamento do mercenário se contrapõe radicalmente ao do bom pastor.

O evangelista sublinha a bondade do Pastor/Jesus com uma segunda motivação: ele além de expor a sua vida por suas ovelhas, conhece-as, ou seja, ama-as profundamente. Entre o Pastor e as ovelhas subsiste uma comunhão de vida, que possui como modelo o amor recíproco com o Pai. Na linguagem semítica, o sentido de “conhecer” ultrapassa o saber cognitivo, indicando uma experiência concreta de relacionamento íntimo. Este “conhecimento” é desde agora, para nós, a vida eterna (2ª. Leitura 1Jo 3,2).

O v. 16 introduz o tema da salvação universal: todos os povos formarão um só rebanho. A comunidade messiânica será composta por todos aqueles que escutarão a voz de Jesus, crendo nele. O texto fala em mia poimnē,  “um rebanho”. Não se diz “um só aprisco”, porque a unidade não é considerada do ponto de vista externo e institucional, mas interior e dinâmico (genēsontai “haverá”, literalmente “se tornarão)

Nos vers. 17-18 aparece a ideia da plena adesão de Jesus à vontade do Pai. Jesus despoja-se de sua vida com a certeza de poder retomá-la de novo. Nos sinóticos é o Pai que “entrega” o Filho. Em João, Jesus mesmo oferece livremente sua vida. Ele possui o poder de doá-la, mas também o poder/direito de resgatá-la.

Relação com as outras leituras

A liturgia do 4º. Dom de Páscoa com a 1ª leitura (At 4,11) e o Sl 117,22, ao elencar o tema da pedra rejeitada que se torna pedra angular, faz uma nítida alusão à ressurreição de Jesus.

Terceiro Domingo do Tempo da Páscoa

Dia: 18 de 04 de 2021
Primeira Leitura: At 3,13-15.17-19
Salmo: 4,2.4.7.9
Segunda Leitura: 1Jo 2,1-5a
Evangelho: Lc 24,35-48

No capítulo 24, os relatos das aparições do Ressuscitado constituem a solene conclusão do evangelho lucano.  Este capítulo está dividido em três seções: o anúncio da ressurreição às mulheres (vv. 1-12); a aparição aos discípulos de Emaús (vv. 13-35) e a aparição final de Jesus aos onze (vv. 36-53). O autor demonstra duas preocupações: provar que as Escrituras revelam o plano salvífico de Deus em Jesus e atribuir ao próprio Jesus a iniciativa missionária dos discípulos, que marcará a comunidade de Lucas e, de modo mais abrangente, toda a Igreja. Por isso, o evangelista finaliza seu primeiro livro respondendo às dúvidas e dificuldades dos discípulos a respeito da ressurreição de Jesus.

No trecho de hoje, as primeiras palavras que Jesus ressuscitado aos discípulos são “paz a vós” (v. 36). No evangelho de Lucas, o tema “paz” é muito importante e está presente em todo o livro. A palavra grega eirēnē é usada 14 vezes em Lucas e está associada intimamente à ação do Messias: ele guiará o povo de Deus para a verdadeira paz (Lc 1,79), que é dom de Deus a quem é fiel (Lc 2,14.29), mas também é fruto da ação de Jesus como aquele que cura as enfermidades físicas (7,50; 8,48). Por isso, a invocação da paz faz parte da missão dos apóstolos (10,5-6). Estes breves exemplos demonstram que, em Lucas, o projeto de Jesus está intimamente associado à paz.

Para compreendermos mais claramente isso, é necessário situar no contexto do Império Romano não apenas a pessoa e as palavras de Jesus, mas também a comunidade lucana. O Terceiro Evangelho foi escrito em torno do ano 85 de nossa era. A dominação romana era fortemente propagandeada como “pacificação”: Roma impuna a chamada Pax Romana, um projeto de paz caracterizado pela submissão dos que se opunham à dominação imperial, uma paz manchada de sangue, garantida pela força das armas e pelo acúmulo de cadáveres. A Pax Romana foi estabelecida e consolidada por Otaviano, o primeiro imperador. Ele mudou seu próprio nome para César Augusto e se fazia chamar de “Salvador”, porque suas vitórias evitaram que o enorme território conquistado pelos romanos se fragmentasse. Neste sentido, ele “salvou” o império.

Lucas não se cansa de afirmr que César Augusto não é o Salvador (aliás, esta é a afirmação do anjo, em Lc 2,11: “o verdadeiro salvador está em Belém, não em Roma”) e que a verdadeira paz não é aquela imposta violentamente por Roma, mas aquela que Deus oferece para quem com liberdade a aceita (Lc 2,14). Em outras palavras, Lucas desmascara a mentira de uma paz banhada no sangue dos que não se submentem ao imperador romano. Por isso, as primeiras palavras de Jesus Ressuscitado são “Paz a vós”. Esta saudação, porém, provoca não apenas o reconhecimento de que Jesus está ali presente, mas também medo e dúvida: “eles pensavam ver um espírito”(v.37).

A comunidade lucana vive no ambiente grego e, conforme a compreensão da época, quando alguém morre, seu espírito se separa do corpo. Por isso, é necessário demonstrar que Jesus Ressuscitado não é um espírito desencarnado que vaga e aparece a seus amigos e parentes. Jesus não é um fantasma e, por tal razão, os discípulos podem vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo. O evangelista ainda acrescenta o detalhe de que ele se alimenta na presença dos discípulos, como modo de garantir que não é uma “alma penada”. Ao contrário, os discípulos constatam que o mesmo Jesus que morreu na cruz está agora ressuscitado: “Vede minhas mãos e meus pés. Sou eu mesmo” (v. 39).

Jesus se apresenta não como alguém glorioso (como se fazia representar o imperador), mas como aquele que carrega os sinais da crucifixão. As marcas dos cravos nas mãos e nos pés são os resultados das escolhas e da coerência de Jesus. Ao mostrá-las a seus discípulos, Jesus quer convencê-los de que seus ideais, suas ações, suas lutas em defesa da vida e da verdade não morreram na cruz nem podem ser apagadas pela tirania do império. Mais ainda: ele convida os discípulos e toda a Igreja a se engajarem no seu projeto de paz, marcado pela vida, pelo perdão, pela verdade, pelo acolhimento e pela justiça.

No v. 44, Jesus afirma: “é necessário que se cumpra tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Deste modo, ele faz os discípulos compreender o significado dos acontecimentos à luz das Escrituras: “Então, abriu‑lhes a mente para que compreendessem as Escrituras” (v. 45). A exemplo do que acontece no episódio de Emaús, temos reminiscências eucarísticas: Jesus se faz presente no meio da comunidade reunida e toma refeição com os discípulos. Antes de partir, porém, ele explica o sentido das Escrituras numa linguagem que todos possam entender e aplica a eles as antigas profecias, acerca do anúncio da conversão a todas as nações (vv. 46-47), de modo que, a partir desta aparição, eles se tornem as testemunhas (v. 48) de um novo projeto de paz e vida plena.